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Não somos todos iguais: racismo e infância

Esses dias, o Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank denunciaram um bully virtual que fez ataques racistas à sua filha. O cunhado da Giovanna postou uma foto da criança seguida da hashtag #somostodosiguais.

Não somos. E é importante determinar isso: negros não são iguais à brancos, crianças negras não são iguais à crianças brancas, enquanto vivermos numa sociedade racista.

Sim, toda criança merece ser amada, respeitada e tratada como uma pessoa. Alice Miller, uma psicóloga alemã, especializada em primeira infância e nos males que uma criação abusiva pode trazer, dizia: o desprezo é a arma do fraco, a capa protetora contra sentimentos que nos lembram da nossa própria história. E, na base do desprezo, de qualquer discriminação, se encontra  o exercício do poder - um poder mais ou menos consciente, incontrolado, oculto e tolerado pela sociedade - do adulto contra criança.

Quando você é uma criança negra e se dá conta que é negra, vê que a sua presença na sociedade é diferente, vê que sua presença incomoda.

Você, muitas vezes, não é considerada uma criança linda, inteligente e capaz. Você é considerada uma criança que tem o cabelo de Bombril, que parece um macaquinho, que vai ficar sem par na festa junina. Por mais que seus pais falem que você é linda, é inteligente e capaz, a sociedade racista faz questão de lembrar que isso não é verdade.

E, dessa forma, crescemos, e  criamos, crianças que viram adultos com marcas profundas de uma violência tão naturalizada. Criamos crianças negras que acham que não merecem amor, que não sabem dar amor, que tem baixíssima auto-estima.

Pra mim, é necessário que os pais e, também, pessoas negras, não só falem para as crianças negras que elas são bonitas, inteligentes e capazes. Mas, também, que a sociedade não está interessada em ter cidadãos negros fora das margens, que vivemos num país extremamente racista, que brancos não querem nos ver nos espaços em que só estamos para servir como restaurantes, museus, lojas de luxo e aeroportos e que o racismo machuca muito, porque todos queremos ser amados e acolhidos.

É necessário que eles digam pras crianças que elas podem e devem querer ser tratadas como iguais, representadas na TV, nos desenhos, nas bonecas, e que elas podem também chorar, ficar tristes e não saber lutar de volta. Porque eu, com 30 anos, muitas vezes não sei como responder à um racista e só volto pra casa e choro.

É essencial entendermos e ensinarmos que não somos todos iguais.

Talvez, como a própria Alice Miller tanto fale nos seus livros, seja fundamental que os adultos, adaptando para este texto, os negros, curem as suas próprias feridas trazidas pelo racismo e pela opressão.

Nós também precisamos de acolhimento e precisamos compreender, profundamente, que não somos feios, errados, burros, mas vivemos numa sociedade que repete isso de tantas maneiras diferentes que acabamos acreditando no que nos falam.  

Só assim, dessa forma, como negros que resgataram sua auto-estima, poderemos criar crianças que acreditem que são lindas, inteligentes e capazes.


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Joana Mendes é negra e rondoniense há 30 anos, redatora publicitária há 12 e tutora de gatos negros fabulosos há 1.

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