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A próxima ‘vadia’ é você!

Há algum tempo vi uma imagem postada no Facebook de uma garoto que tinha acabado o namoro há pouco tempo. Era uma cena do filme “Bonequinha de Luxo”. A legenda era exatamente essa da foto abaixo. Ele diz: eu te amo. E ela responde: “Obrigada”.

Essa não é a fala da personagem no filme, como dá para ver nesse vídeo, mas a imagem fala tanto sobre o momento que vivemos quanto o comentário que o garoto colocou nesse compartilhamento: “Bitch”. Sim, ele estava exteriorizando a dor de ter sido deixando por alguém que amava a chamando de vadia. Sim, ele amava uma vadia. Ops, não, ela virou vadia apenas quando não o amou de volta.

A palavra vadia tem um peso enorme na nossa vida. Vadia é usado para falar, majoritariamente, de comportamento sexual - mesmo que nas entrelinhas. Mulheres e homens usam e nem se dão conta de quão infantil é querer colocar parâmetros para o que é ser “certa” e o que é ser “vadia”. Ainda mais quando esses parâmetros mudam num piscar de olhos.

É nesse momento que chegamos ao ponto central do que quero dizer. O que faz de você uma vadia? Você sabe? Por que eu digo que você será a próxima vadia? Simplesmente porque isso vai acontecer. Um homem, ou uma mulher, vai dizer por aí que você é uma vadia. Invariavelmente. Sabe por quê? Porque vadia é toda mulher que não corresponde às expectativas, principalmente às masculinas.

Se ele queria fazer sexo e você disse não, é uma vadia moralista. 
Se você queria fazer sexo e ele também, você é uma vadia rodada. 
Se ele quer ter um relacionamento com você e você não quer nada com ele, é uma vadia que se acha melhor que os outros. 
Se você quer ter um relacionamento com ele e ele não, você é uma vadia interesseira. 
Se ele disse “eu te amo” e você não respondeu porque não sente o mesmo, é uma vadia que não se importa com o sentimento dos outros. 
Se você disse “eu te amo” mesmo sem ter um relacionamento, é uma vadia querendo se fazer de sentimental.

E esses são só alguns exemplos, mas notou que todos eles têm sexo ou sentimentos românticos no meio? Quantas vezes a gente não vê homens falando sobre a ex-namorada como se ela fosse o maior problema do mundo quando há dias ela era a salvação do planeta? Mulheres também fazem isso? Claro, mas o comportamento é muito mais comum no mundo masculino quando está ligado a frustração.

Homens não sabem lidar muito bem com negativas. Sim, estou generalizando porque estou falando de uma maioria, de uma cultura em que o homem pode ter tudo o que quiser, quando quiser e ai de quem não deixar. Se você atrapalha isso, vira uma vadia.

Não importa o que você faça, você é considerada uma delas – de nós – em algum momento. Nem as religiosas, que tanto se mantém dentro dos princípios da igreja, escapam. Viram “crentes do rabo quente” apenas porque conversam com as pessoas, se interessam e sorriem, são felizes.

A única mulher que um cara nunca vai considerar uma vadia é a mãe. A própria, é claro, porque a dos outros já fez barbaridades por aí. Imagina só, fez até sexo para engravidar! ;)

O que precisamos entender é que esse é um tipo de violência silenciosa. Você está sendo agredida. E qual o motivo? Ser mulher. Se você fosse um homem, ninguém julgaria sua vida sexual, suas decisões – talvez julgassem suas negativas, o que também precisa mudar, já que ninguém tem obrigação de nada -, mas ninguém chama um cara de vadio ou puto.

Existem mulheres que propagam esse pensamento? Claro! Todos vivemos no mesmo meio e ele influencia nossas decisões. Mas é aí que temos que nos perguntar, a cada vez que formos usar a palavra: o que eu quero dizer com isso? O que estou julgando? Tenho esse direito?

E quando você for chamada de vadia, porque você vai ser, saiba que isso não quer dizer nada demais. Só mostra que você colocou suas vontades e desejos em primeiro lugar em vez de privilegiar outra pessoa. Num mundo perfeito diriam que você é decidida e tem amor próprio – continue assim!


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Carol Patrocinio é jornalista e divide seu tempo entre escrever para diversas publicações sobre assuntos relacionados ao mundo feminino e ao feminismo, como o Ondda, seu canal no Medium, vídeos no Youtube e consultorias para negócios que querem falar com as mulheres.

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