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Sobre a identidade cultural latina - e porque nós, brasileiros, nos sentimos tão distantes dela

Você é latino (provavelmente. Se está lendo isso, as chances são altíssimas).

Repete comigo: latino. Eu, você, sua mãe, seus amigos. Todos latinos.

Como boa parte da população brasileira, com exceção talvez dos povos em região fronteiriça, os produtos culturais que eu cresci consumindo por aqui nunca me transmitiram de forma nenhuma o senso de unidade ou identidade cultural latino.

Em outras palavras, a cultura popular que constrói nossa visão do que é cultura não considera o brasileiro latino, no geral.

Claro, se há diferenças culturais grandes até entre os países hispânicos na América Latina, é desnecessário apontar que o Brasil também tem inúmeras particularidades. Mas é justamente o que os países hispânicos têm em comum culturalmente que os coloca em uma posição confortável para se reconhecer dentro dessa identidade latina.

A língua é um desses fatores que não compartilhamos culturalmente com eles. Mas é um dos únicos. E afirmo isso porque tive o privilégio de visitar uma porção de países da América Latina e Central e até morar na região do Caribe por um ano.

Aprender a língua espanhola foi a barreira quebrada que me permitiu enxergar claramente como, tirando isso, somos culturalmente todos parecidos por aqui. Aliás, nem a língua em si é uma grande diferença: o português é um dialeto do espanhol. Sou da teoria que aprender espanhol, para quem nasce falando português, é nível easy: se você tiver oportunidade de acostumar o ouvido aos fonemas, adaptações ortográficas e gramaticais, dá pra aprender sozinho. E isso dá pra fazer com música, filmes, livros e YouTube.

Foi com a língua espanhola que começou minha reconexão com a minha, a sua, a nossa latinidade. O único jeito de refazer essa conexão com a América Latina que o isolamento cultural brasileiro impõe é aprendendo o idioma, visitando esses lugares e conversando com as pessoas.

Foi assim que eu descobri expressões idiomáticas e coloquiais idênticas baseadas em aspectos etimológicos da cultura que dividimos - 'bacana', em português, é 'bacan' ou 'baca' no Chile, e a gente sequer faz fronteiras com eles. Foi assim que eu descobri que grandes sucessos da 'música brasileira' são traduções de hits em espanhol, e vice-versa; assim, deu pra observar que nossa gastronomia, nossas etnias, nossos dilemas, nosso jeito de enxergar o mundo, nossa maneira de se relacionar com o governo e em comunidade são muito semelhantes.

Dividimos, todo o continente, uma colonização irresponsável, predatória, que deixou sequelas sociais e econômicas por onde passou - e compartilhamos também as sequelas disso de maneira muito semelhante.

Quando me dei conta disso, tive uma epifania sobre quem somos e de onde viemos como povo: foi como é como um download instantâneo de uma compreensão mais ampla nossa condição, da origem do nosso povo, dos desafios que enfrentamos e do nosso lugar no mundo.

Somos todos a mesma gente, e em algum momento o país se distanciou dessa noção. Depois, com a cultura de massa, nossa exclusão pessoal da identidade latina se cristalizou.

Se você é de classe média e tem a oportunidade e o privilégio de visitar outros lugares na América Latina, considere. Se não, use os recursos aos quais tem acesso - como o YouTube e as bibliotecas - e tome contato com a cultura popular ou não produzidas por hermanos de todas as fronteiras e além delas.

Não dá para se manter conscientemente apartado disso quando essa reconexão, além da epifania, tem a capacidade de gerar uma sensação tão única de unidade e identificação cultural, de partilha das mesmas origens e a compreensão de que estamos, culturalmente, socialmente, etnicamente todos no mesmo balaio.


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Ana Freitas tem 28 anos e é jornalista.

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