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Padre Fábio de Melo, você pecou

[Carta aberta ao Padre Fábio de Melo, que proferiu um sermão no passado, que viralizou recentemente. No sermão ele diz, entre outras coisas: “As mulheres que são agredidas fisicamente pelos seus maridos, no dia em que ela recebe a primeira agressão, ela é que vai determinar para ele se ele vai ter o direito de agredi-la a vida inteira ou não. O agressor só se torna agressor porque a vítima o autoriza.”]

Padre, você pecou. Talvez não sob a ótica da sua religião, mas pecou. E dessa vez ninguém vai te dar um número certo de Pai Nosso ou Ave Maria para você repetir em voz baixa enquanto segura o terço com força e fé. Hoje, padre, é dia do julgamento.

Não somos loucas, promíscuas ou permitimos que nos tornem vítimas de violência. Somos fruto da sociedade criada por pessoas iguais a você: homens. Somos resultado de séculos de exploração, violência, agressividade e silenciamento. Você consegue imaginar o resultado dessa equação?

Nossa depressão não tem nenhuma ligação com o prazer consensual que buscamos, mas pode ter com a violação do nosso corpo pela qual passamos diariamente porque homens acreditam que o papel da mulher é ser submissa e servir. Parece familiar? Para muitos homens, servir é ser obrigada a aceitar qualquer coisa que venha deles. Inclusive o estupro e a violência.

Vê, padre, a diferença entre uma coisa e outra? De um lado sou eu mesma buscando algo para mim, de acordo com o que eu acredito e desejo. Do outro são homens desconhecidos, ou não, dizendo como eu deveria agir, me portar, o que eu deveria desejar e tudo de acordo com o que eles querem. Isso inclui você?

No seu sermão, você pergunta: “O que é a depressão, a angústia, a ansiedade?” e eu te respondo que, diferente da sua explicação sobre falta de amor ou de sentido na vida, elas são doenças. Doenças tratadas com medicamentos. Essa sensação sem fim de algo incomodando no peito não é coisa da cabeça das pessoas, ela existe e tem bases físicas. A ciência explica.

A ciência também explica porque uma pessoa morta não se move. E podemos usar essa explicação, padre, para entender porque mulheres vítimas de violência doméstica não saem do lugar: elas estão mortas por dentro.

Sabe, padre, a violência é uma coisa inteligente. Cruel, eu sei, porém inteligente. Pessoas violentas não começam a encher a outra de porrada da noite para o dia. A violência, padre, é muito maior do que as marcas físicas que pode deixar. Ela começa afastando a mulher do seu convívio, a deixando sozinha em um lugar em que ninguém pensa muito no seu bem-estar. Poda-se qualquer tentativa de florescer que essa mulher tenha. Decide-se a roupa que ela deve usar, a maneira que deve se portar, os gostos que deve ter. Diz-se que se ela não seguir essas coisas, vai para o inferno, quer dizer, vai ficar sozinha, sem o companheiro. E ela acredita. Aí fala-se que ela não é inteligente o suficiente, bonita o suficiente, esperta o suficiente. Repete-se isso até que ela acredita, como uma oração diária. E é só aí, quando ela já acredita em tudo isso, quando ela já não se reconhece, que ela apanha. Nesse momento, padre, caída no chão e sangrando por dentro, você acha que vai ter algum bom samaritano para tirá-la dali ou veremos apenas pessoas passando, apontando e dizendo que ela devia ter dito “com o olhar” que o marido não poderia agredi-la?

Nós realmente não “saímos por aí com as plaquinhas 'Não abuse de mim', 'Me respeite'”, como você disse, padre. Você também disse que “essa placa não está escrita em palavras, mas nos seus olhos. É você, com o seu jeito de olhar, com o seu jeito de ser gente, é o caráter que está exposto no seu rosto que vai dizer ao outro o que ele pode fazer com você ou não”, então olhe nos olhos das mulheres que lutam por um mundo mais justo: o que eles dizem? Mas atenha-se aos olhos, não às roupas, não ao tom de voz, não a fala cheia de raiva por não ser ouvia e ser violentada diariamente. Os olhos, padre, dessas mulheres, dizem chega. Mas os homens, padre, eles não escutam o que esse olhar diz. Eles olham para outras partes do corpo, eles olham para as partes que os interessam, as partes que nos tornam presas fáceis da submissão forçada. O que fazemos, então, com toda essa história que carregamos no olhar, se ninguém olha para ele?

É preciso ouvir a si mesmo, padre. É necessário e urgente entender o que é que estamos dizendo nas entrelinhas, quem é que estamos apoiando e fortalecendo com nosso discurso. Aqui, na Terra, não dá para pedir perdão depois que uma pessoa é morta porque nosso discurso fortaleceu um agressor e essa pessoa não estará mais entre nós. Aqui, padre, nossos olhares não são levados em conta nem quando já estamos crucificadas. Aqui, padre, as leis são outras. E você, que vive nesse mesmo mundo, precisa olhar mais para isso: menos ao céu e mais à terra.

É, padre, nós, mulheres, não derramaremos uma lágrima a mais pelo seu sermão. Não deixaremos que ele nos toque e nos faça desmoronar mais uma vez. Tudo porque você representa uma instituição que nos aprisiona há séculos, nos subjuga e coloca em posição de servidão. Nós, padre, estamos acostumadas a isso. Mas aquele a quem você adora, por sua trajetória de vida, estaria ao nosso lado. Não cairá nenhuma lágrima dos nossos olhos, padre, mas Jesus chorou.


Carol Patrocinio é jornalista, feminista e gosta de olhar as coisas por um ângulo diferente. Acredita que o amor muda o mundo, mas que a raiva é o combustível mais potente da revolução. É co-fundadora da Comum, mãe e oferece consultoria para negócios que querem fugir de esteriótipos de gênero.

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