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Política: feminismo combina com presidência

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR/Fotos Públicas

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR/Fotos Públicas

“Eu fui feminista. Hoje eu sou presidenta”

Dilma Rousseff disse a frase acima em entrevista recente à Andrea Dip, da Agência Pública. O contexto era uma pergunta sobre legalização do aborto e Dilma dizia que, enquanto presidente, não ia se posicionar a favor ou contra, sendo o seu papel fazer cumprir a lei.

Quando disse “feminista”, Dilma pensou em uma mulher determinada (e meio brava), que dedica sua vida ao feminismo e que não leva nada em consideração além disso. Ela claramente quis dizer que, enquanto presidenta, tem que ouvir todos os lados. Ok, Dilma, concordamos, mas em nenhum momento isso é excludente com o feminismo.

A decepcionante fala da presidenta trata o feminismo como uma seita - que precisaria ser deixada de lado em um cargo público, assim como as religiões -  e não como um jeito empoderador de olhar para o mundo.

Ser feminista é perceber as desigualdades de gênero e lutar contra isso, o que não é de nenhuma maneira contraditório com o que uma chefe de Estado deve fazer. Pelo contrário: líderes se guiam (ou deveriam se guiar) pelos seus valores, e construir uma sociedade mais justa, premissa do feminismo, é no que ela diz acreditar.

Dilma nunca se destacou pela sua habilidade de falar em público, então fico na dúvida se a frase foi um acidente ou realmente a mais completa ignorância e desconhecimento sobre o que é o feminismo, mas de todo modo é um desserviço. Dilma frequentemente se apoia no fato de ser mulher para falar sobre o preconceito e os golpes que sofre no poder - e ela está certa, o gênero sem dúvidas pesou em seu mandato -, mas não consegue reconhecer a abrangência do feminismo e acaba caindo em velhos estereótipos. Tudo isso para se esquivar de responder uma pergunta sobre uma das maiores pautas do movimento, que é a legalização do aborto.

Vários são os chefes de Estado que declaram se feministas, os de maior relevância são Barack Obama e Justin Trudeau, este último dando inúmeras demonstrações de seu comprometimento com as mulheres, com a igualdade de gênero e direitos das minorias. Mas como a participação dos homens no feminismo é um tópico polêmico, não precisamos falar deles. Ainda dá para se inspirar em Michelle Bachelet (Chile), em Bidhya Devi Bhandari (Nepal) ou em Anne Hidalgo (prefeita de Paris).

Melhore, Dilma. Em muitas coisas, mas nisso também. Você sabe muito bem que ser presidenta e ser líder, tomar partido, é posicionar-se contra as injustiças. Não dá para fazer isso só quando é conveniente e depois recorrer a velhos estereótipos para se safar. Para quem sempre recorre ao feminismo em momentos difíceis, está na hora de se informar um pouco mais - ou de ter menos rabo preso e falar o que pensa.


Nana Soares é jornalista que vai escrever sobre desigualdades de gênero até elas deixarem de existir. Co-autora da campanha contra o abuso sexual do Metrô de São Paulo, escreve sobre feminismo e violência contra a mulher para o Estadão e faz parte do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop. 

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