`

Trabalho doméstico: um passo a passo pra dividir as tarefas na prática

Um dia, no passado, o trabalho doméstico era uma exclusividade feminina. Mulheres não podiam trabalhar fora de casa, então a divisão era essa: homens fora e mulheres dentro. O tempo passou, as mulheres ganharam o mercado de trabalho e a divisão continuou a mesma, mas agora as mulheres passaram a somar atividades. Dupla jornada para as mulheres sem filhos. Tripla para as mães. Reconhecimento nenhum para qualquer que seja ela. O texto “Mulheres e a vida doméstica: o dobro do trabalho, nenhum reconhecimento”, da Giovanna Riato, fala bem sobre isso.

A saída encontrada por mulheres da classe média para cima é a contratação de outras mulheres para que façam os serviços domésticos. Mas faz sentido nos livrarmos do nosso fardo e o colocarmos nas costas de outras mulheres? Além disso, estamos observando a diferença entre contratarmos uma profissional que vai limpar nossas casas e a contratação de uma pessoa que vai nos servir em todas as necessidades, sem limites? Olhar o mundo além do nosso círculo de vivência é importante e por isso a página Eu Empregada Doméstica se torna objeto de estudo para quem quer entender, a fundo, como funciona a relação com quem se torna responsável da higiene na casa de terceiros.

O panorama não parece bom, eu sei. Mas pode ser.

Basta que a gente se esforce para quebrar ciclos que de tão antigos soam como impossível de serem modificados. Nos levam a acreditar que homens não sabem cuidar da casa ou dos filhos, que não é algo inerente a eles.

A verdade é que nada é inerente ao ser humano: somos construções. Nosso cérebro se desenvolve conforte repetimos hábitos ou treinamos habilidades.

A divisão de tarefas domésticas é o primeiro passo para que os homens passem a olhar o ambiente doméstico como um trabalho de todas as pessoas que vivem na casa.

Para facilitar a vida, resolvemos dividir um passo a passo das tarefas que precisam ser feitas em casa e qual sua periodicidade. A partir daí o casal consegue escolher as tarefas preferidas, criar um sistema em que a cada semana um dos dois fica responsável pela atividade que ninguém quer fazer e colocar os filhos, caso eles existam, para participar. Cada pessoa pode tirar ou incluir tarefas, mudar a periodicidade e adaptar o cronograma.

Eu, filha da classe média e sempre com uma empregada doméstica trabalhando casa, passei por dificuldades enormes para entender algumas coisas:

(1) nenhuma casa é tão limpa quanto a da minha mãe (exatamente por ter alguém totalmente dedicada a isso)

(2) não vivemos em casas de revista

(3) as tarefas nunca têm fim e

(4) o que é mesmo que precisa ser feito?

Antes de tudo é importante dividir as tarefas em dois grupos: limpeza e faxina. A limpeza é o dia a dia, a faxina é aquela mais pesada, que você faz a cada 15 dias, por exemplo.

Dentro da limpeza há coisas que podem ser feitas uma vez por semana, por exemplo. E dentro da faxina há coisas que podem ser feitas só uma vez por mês. O importante é ir testando o que se adapta a você.

Vamos às tarefas e observações:

1. Limpeza da casa

Aqui você pode separar 30 minutos por dia, escolher um cômodo e colocar tudo em ordem. Pode ser algo que você e a pessoa com quem você divide a vida fazem antes do jantar, por exemplo.

Essa imagem e a abaixo são do blog Organize Sem Frescura, que é cheio de dicas pra manter a cada em ordem

Essa imagem e a abaixo são do blog Organize Sem Frescura, que é cheio de dicas pra manter a cada em ordem

2. Faxina

Para quem trabalha durante a semana, o sábado é o dia perfeito para uma faxina. Marque na agenda, acorde cedo e até o final da tarde a casa estará uma delícia para você aproveitar a noite.

3. Nem tudo é do seu jeito

Uma das coisas que deixava maluca logo que passei a morar com meu companheiro era que o tempo dele era muito diferente do meu. Ele podia, por exemplo, demorar dias para lavar a louça que dizia que ia lavar. O que eu fazia? Lavava, resolvia a questão e ficava ressentida. Nenhum sentido nisso, né?

Com o tempo fui aprendendo que ninguém no mundo vai fazer as coisas da maneira que eu faço. Os motivos para isso são diversos, vão de vivências a educação passando pelos prioridades que temos hoje. Sair desse ciclo de cobrança e frustração só foi possível quando passei a respeitar a maneira dele de fazer as coisas e descobri que em algumas tarefas ele é muito melhor do que eu.

Uma conversa é a melhor maneira de definir o que é aceitável e o que pode deixar o outro maluco. Eu preciso que as coisas tenham a hora de ser feitas, por exemplo. Ele precisa que eu não pire nas cobranças. Como resolvemos? Combinamos dia e hora para fazer as coisas e pronto, acabaram os atritos nessa área.

Abrir mão do que é pequeno e ser sincera sobre o que é realmente incômodo ajudam não só nessa área do relacionamento, mas em todas elas. Conhecer nossas necessidades e dividi-las com o outro é uma mega prova de amor – e ajuda a manter a sanidade.

4. Para quem tem filhos

Aprender que a organização e limpeza da casa são responsabilidades de todas as pessoas que vivem nela começa desde cedo. Tem horas que, durante a correria, é mais fácil fazer tudo sozinha em vez de gastar tempo explicando e ensinando, às vezes pela décima vez, a maneira certa de fazer as coisas. Eu sei, também passo por isso. Porém, essa é a única maneira de criamos filhos responsáveis e que entendem as obrigações que têm.

Um ensinamento que eu levei para a vida foi: as coisas não precisam ser perfeitas. Meus filhos não vão fazer as tarefas com a maestria que uma senhora de 60 anos, eles vão fazer o melhor que podem. Os seus também.

Temos que lidar com isso e respeitar o desenvolvimento deles, que podem começar a ter as próprias tarefas aos 2 anos, que vão se somando anualmente e podendo ser trocadas com irmãos mais novos. Depois dos 12 anos a criança já pode passar a participar da divisão dos adultos.


2 e 3 anos

  • Arrumar brinquedos e livros

  • Levar a roupa suja para a lavandaria e colocar dentro da máquina – eles amam!

  • Ajudar a alimentar os animais de estimação

  • Limpar o pó – uma meia velha enfiada a mão vira um bichinho comedor de poeira

  • Ajudar a limpar a mesa depois das refeições

  • Guardar os brinquedos


4 e 5 anos

  • Ajudar a fazer a cama

  • Ajudar a pôr e tirar a mesa

  • Passar pano úmido na casa com a ajuda de um adulto

  • Ajudar a guardar as compras de supermercado

  • Preparar as refeições com o adulto responsável

  • Tirar lixo dos banheiros


6 a 8 anos

  • Ajudar a estender a roupa lavada

  • Arrumar a mesa sozinhos para as refeições

  • Ajudar a lavar louça

  • Ajudar a limpar o espaço dos animais de estimação

  • Ajudar na limpeza e manutenção do exterior da casa e jardim


9 a 12 anos

  • Guardar a roupa limpa no armário

  • Cuidar dos animais de estimação sozinho

  • Passar aspirador de pó na casa

  • Ajudar a limpar o banheiro

  • Levar o lixo para fora de casa nos dias certos que o lixeiro passa

  • Ajudar a lavar e limpar o carro

  • Ser responsável por tarefas de limpeza e manutenção do exterior da casa e jardim

5. Cuidado com a barganha

Nos últimos tempos um pai trocou a senha do wi-fi de casa por tarefas da filha. Em um primeiro momento a ideia parece genial, porém o que ela diz nas entrelinhas? Que obrigações não existem e tudo pode ser trocado ou comprado. Um recado nada bacana para quem ainda está entendendo como viver em sociedade.

Explique para as crianças que uma casa limpa e organizada é mais gostosa. Crie momentos prazerosos depois da limpeza e ajuda o cérebro do seu filho a criar boas conexões com as obrigações domésticas.


A assinatura mensal da Comum dá acesso a parte fechada, que inclui as trilhas, o fórum, encontros só pra comunidade (on e offline) e desconto em encontros abertos ao público. Você pode pagar R$40/mês ou financiar uma mina que não possa pagar, com R$80/mês. Saiba mais aqui.


Autocompaixão para mulheres: a primeira trilha da Comum

A trilha da Comum desse mês é sobre autocompaixão e autonomia afetiva pra mulheres. Vamos explorar o tema juntas, através de textos, vídeos, conversas no fórum e práticas. A trilha começa nessa semana, com esse texto, e estará disponível integralmente só pras assinantes. Se quiser saber como se tornar uma e participar dessa trilha e das próximas, clica aqui e vem com a gente. 


Carol Patrocinio é jornalista e divide seu tempo entre escrever para diversas publicações sobre assuntos relacionados ao mundo feminino e ao feminismo, seu canal no Medium e consultorias para negócios que querem falar com as mulheres.

Área de login
Bem-vinda, (First Name)!

Esqueceu a senha? Mostrar
Entrar
Acessar área logada
Meu perfil Não é usuária? Cadastre-se Sair