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Pra quem é o seu feminismo?

Em outubro de 2015 as ruas de diversos estados do Brasil foram tomadas por mulheres durante manifestações contrárias ao projeto de lei do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o PL n. 5069 previa punições à mulheres que tentassem interromper suas gestações bem como punições a quem tentasse lhes ajudar. As mulheres não se calaram diante disso e o que conseguimos ver foi a força da união feminina, ecoando nas ruas. Foi a chamada Primavera feminista.

Mas como tudo isso se reflete na nossa vida?

Por quem e para quem o feminismo é feito?

Eu dificilmente utilizo a palavra feminismo nos meus textos, não porque não acredite no poder dessa palavra, eu acredito e sei como é importante darmos nome a um movimento tão bonito e poderoso. Mas, acho que muitas vezes, ao darmos nome, nós acabamos limitando e criando uma imagem para aquilo.

Sou jovem, negra e universitária. Nos espaços por onde transito a maior parte do tempo é muito fácil abordar uma mulher com características parecidas com a minha e falar a respeito de misoginia, machismo e tantas outras questões. Não é que eu pense que a jovem universitária precise menos do feminismo que uma idosa doméstica e moradora da periferia, não é isso. Mas, para quem construímos esse movimento? E o que seria então, esse tal feminismo? O que é mesmo sororidade? E, eu preciso saber disso tudo?

Bom, a resposta é que não, você não precisa saber o significado desses termos. Eu mesma até a um ano atrás não conhecia nenhum deles, mas já os colocava em prática a muito tempo. 

Questiono o afastamento que o “estudo em feminismo” pode trazer, uma vez que as mulheres que mais rejeitam ou criticam a ideia de feminismo, que acreditam não ter absolutamente nada a ver com essas ideias, geralmente são as que precisam urgente se empoderar e tomar conhecimento dessas questões. São as mulheres negras, mulheres com companheiros abusivos, mulheres da periferia que reproduzem o machismo com o qual foram ensinadas a conviver, mulheres mais velhas, enfim, mulheres.

Mas como fazemos isso, sem impor nada umas as outras? Respeitando umas as outras? 

Quando você passa por uma rua tarde da noite e decide caminhar próxima a outra mulher que está também em posição de desconforto e passos largos, isso já é feminismo. Isso é sororidade ou empatia entre mulheres. Quando você ouve sua irmã reclamar que o marido a chamou de feia, e diz o quanto ela está linda e que deveria se vestir ou se maquiar da forma que desejasse. Quando você contesta e não deixa passar o fato de não conseguir um emprego mesmo sendo mais qualificada que seu concorrente, apenas por você ser mulher.

Ser mulher (e feminista) é ter poder de si mesma.

Não devemos tentar impor nada umas às outras

Por mais que acreditemos que uma ideologia baseada em sororidade é a melhor forma de vivermos a vida umas com as outras, enquanto mulheres e feministas devemos sempre ter em mente que nenhuma regra é bem-vinda dentro desse movimento, ou seja, não devemos impor nada a outra mulher. É importante também que, dentro desse movimento as mulheres sejam capazes de entender as diferentes demandas, é necessário não utilizarmos o discurso de sororidade como uma reedição de mitos como democracia racial ou social, só que transferido para gênero.

Devemos entender que mulheres negras possuem demandas diferentes das brancas, que possuem demandas diferentes das nordestinas e dentro disso tentar apoiar umas às outras e principalmente, ouvir e aprender com as vivências daqueles grupos que são mais oprimidos.

Precisamos lembrar que o problema não é sermos belas, recatadas e do lar. Se você conhece uma mulher e ela segue esse padrão, tudo bem, desde que ela esteja feliz em ser “do lar” e “recatada”. Desde que seja uma vontade pessoal e legítima.

Devemos fugir de rótulos, apoiaR umas as outras para sermos como desejamos sem sofrer nenhuma retaliação por conta disso.

Feminismo é união entre mulheres e liberdade, liberdade para sermos como desejarmos.


Fabiana Pinto, carioca nascida no Rio de Janeiro e criada na Baixada Fluminense, vivendo em constante trânsito na cidade. Escritora na Revista Capitolina e estudante de Nutrição. Tenta integrar gênero, raça e educação em suas escritas e projetos. Seus textos podem ser acessados no Medium

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