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Se você acha que ciúme é prova de amor, precisamos conversar

Se eu tivesse a chance de conversar com todas as pessoas do mundo e esclarecer-lhes um assunto na cabeça, eu falaria sobre ciúme. A maioria dos sentimentos com os quais a gente lida diariamente são pouco enigmáticos com relação ao seu propósito. Tanto é que, pensando de uma maneira maniqueísta, a gente não tem dificuldades em classificar a maior parte dos sentimentos como nocivos ou construtivos.

O amor é construtivo, o ódio é nocivo. A empatia é construtiva, a apatia é nociva. A solidariedade é construtiva, a avareza é nociva. Mas e o ciúme?

Muito embora ele não seja um sentimento de duas faces – como o medo, que infelizmente nos paralisa, mas felizmente nos preserva – muita gente o enxerga assim. E é por isso que a gente precisa conversar sobre ele.

Muito provavelmente, você cresceu ouvindo que “o ciúme é o perfume do amor” – como dizia (em apenas mais um dos seus discursos tóxicos) Vinícius de Moraes. Que é ótimo o parceiro sentir ciúme, porque é um sinal de que ele realmente gosta de você. Que o ciúme faz a gente se sentir mais desejada. Que é necessário ter um pouquinho de ciúme da pessoa com quem nos relacionamos amorosamente, pra mostrar que nos importamos com ela. E todos esses conceitos positivos sobre o ciúme foram incorporados às nossas vidas como se fossem ciência. Como dois e dois são quatro, como a Terra orbita em torno do Sol, como a fórmula química da água é H2O.

Apoiadas na certeza de que ciúme é uma coisa boa e indissociável do amor, passamos anos pulverizando esse veneno nos nossos relacionamentos.

O comprimento da nossa saia, o nosso sorriso ao agradecer o entregador de pizza pelo serviço, os ex-ficantes que a gente cruza ocasionalmente pela rua: tudo isso é motivo para despertar ciúme no parceiro. Assim como um simples número de telefone anotado num papel, um comentário afetuoso em uma foto de Facebook, uma conversa despretensiosa na fila do banco: tudo isso é razão para acionar a nossa anteninha do ciúme. Porque sentir ciúme é realmente como ter uma antena: a gente vive farejando rastros de infidelidade, vestígios de um passado ~condenável~, motivos para desconfiar.

A gente precisa sustentar a existência dele, como que dizendo: “viu, não falei que era melhor manter a pulga atrás da orelha?” A gente nunca está em paz. E mesmo assim, continua achando que ser ciumenta, quando não uma virtude, é pelo menos um defeito tolerável.

Acontece que de tolerável o ciúme não tem nada. Ele é um sentimento destrutivo que há séculos serve a dois grandes objetivos, em linhas gerais: massacrar a autoconfiança da mulher, quando é ela que sente ciúme, e aprisioná-la, quando ela é o objeto do ciúme. É triste ter que admitir isso, mas nosso processo de construção de autoestima necessariamente passa pela percepção do outro.

Se a vizinha acha meu cabelo lindo, é porque ele realmente deve ser. Se o colega de trabalho acha meu nariz feio, é porque ele realmente deve ser. Se meu parceiro está conversando com outra mulher, é porque eu realmente devo ser insuficiente. Menos atraente, menos sexy, menos inteligente, menos espirituosa. E não importa se a conversa é estritamente profissional ou se os dois são amigos de infância: o ciúme nos leva a interpretar toda e qualquer situação erroneamente. A enxergar tudo como uma potencial traição. E – ponto para o patriarcado! – a encarar mulheres como rivais. Como as ~vacas~ que postam foto de shortinho para ~roubar meu homem~.

E quando somos objetos do ciúme de um parceiro, o cenário é ainda pior. Segundo pesquisa realizada em 2011 pelo Instituto Avon, 38% das agressões domésticas sofridas por mulheres têm como causa raiz o ciúme do parceiro. E não raro essas agressões evoluem para cárcere privado e até assassinato. Aqui estão casos da literatura e da história que não nos deixam mentir: 

Pablo Picasso, o aclamado pintor espanhol, tinha tanto ciúme de Fernanda, uma de suas parceiras, que escondia os sapatos dela diariamente para que ela não saísse de casa.
Bentinho tinha tanto ciúme de Capitu que cogitou matar o filho do casal, que poderia ter sido fruto de um adultério.
Otelo tinha tanto ciúme de Desdêmona que a assassinou.

Assim como o fizeram os ex-parceiros de Sandra Gomide, Mércia Nakashima, Eloá Pimentel e tantas outras mulheres cujos assassinatos não tomam proporções midiáticas.

E é por isso que a gente precisa entender de uma vez por todas: ciúme não é prova de amor, nem amor.

Ser ciumento não é legal. O ciúme vem da percepção distorcida de que temos posse sobre as pessoas com as quais nos relacionamos. E essa falsa sensação de posse, por sua vez, leva ao medo de perder algo que, na verdade, a gente não tem, nunca teve nem nunca terá. Porque pessoas não são propriedades. Pessoas não cabem em gavetas, em armários, em caixinhas. Em testamentos, em declarações de Imposto de Renda, em declarações de bens. Pessoas são gigantes. E livres.

É como, sabiamente, escreveu Rubem Alves: “o ciúme nasce quando se toma consciência de que a pessoa amada é livre. Ela é um pássaro pousado no ombro. Nada o prende. Pode voar quando quiser”.

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Bruna Molon Grotti é jornalista, roteirista e escritora. Um pouco sensível demais, um pouco sucinta de menos. Na eterna luta para se desconstruir. No eterno processo de tentar entender que a gente não tem dois ouvidos e uma boca à toa. Facebook  Instagram: @brunagrotti Twitter: @brunagrotti Snapchat: brunagrotti

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