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Na política, não há como ser mulher sem temer

Não há muita novidade para se contar sobre o governo Temer e sua relação com os direitos das mulheres. A essa altura, já sabemos que não seremos representadas nos próximos anos e que temos que unir todos os esforços para não perder direitos tão duramente conquistados nos últimos anos. Já sabemos que o novo governo sequer faz esforços para disfarçar o quão oligárquico é.

Mas mesmo assim - e talvez justamente por isso - seja tão necessário escancarar cada nova atrocidade contra nós. Não porque seja inacreditável ou inesperada, mas porque nunca devemos nos acostumar com o injustificável, por mais recorrente que ele seja.

E a última da vez foi a entrevista que Michel Temer concedeu ao jornal O Globo. Boa parte da entrevista discute a participação de mulheres em seu governo, ao que Temer sempre responde com o velho argumento de que o que importa é a competência e não o gênero, como se fossem coisas excludentes.

“Você vê que as mulheres que citei têm competência reconhecida, não é nada combativo”, disse ele, deixando bem claro que não quer a seu lado ninguém que questione a nossa representação.

Na mesma entrevista, Temer também falou que "[a nomeação de mulheres] é fruto de um movimento político, não um movimento de gênero”. Porque na cabeça de Temer, “movimento de gênero” não é movimento político. Será o que então, perfumaria? É para não incomodar ninguém? E o que é política para ele? Com certeza um território só para homens, já que sua fala também coloca os termos política e gênero em oposição. Ao menos isso é coerente com o que seu governo tem feito aqui.

Quando questionado se sua composição ministerial deve mudar ele diz que não, mas que “se vier a mudar, não é improvável que eu escolha mulheres”. Não é improvável. Um olhar rápido por essa frase já percebe que Temer não responde a pergunta diretamente e se esquiva quando o assunto chega na participação de mulheres. Com um pouco mais de atenção percebemos como somos rebaixadas a um segundo escalão de governantes (como se a essa altura a gente já não soubesse). Se der ele escolhe mulheres. Se der….Se sobrar uma vaguinha…

Mas a cereja do bolo da entrevista é quando Temer comenta porque Grace Mendonça foi uma boa escolha para a Advocacia Geral da União. Diz ele: “E o terceiro ponto, é claro, que sendo mulher, ajuda nessa história do gênero”. Nessa história de gênero. A luta das mulheres por direitos iguais foi reduzida a “essa história de gênero”. Um assunto menor com o qual ele não se importa nem nunca se importou (e vai deixando isso mais claro a cada dia).

É isso que sobrou para nós, companheiras: migalhas. Restos de política em um cenário em que fazer justiça a 52% da população não importa, é no máximo um bônus na popularidade de uma medida. Nada de novo no Planalto, mas nem por isso menos aterrorizante.


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Nana Soares é jornalista que vai escrever sobre desigualdades de gênero até elas deixarem de existir. Co-autora da campanha contra o abuso sexual do Metrô de São Paulo, escreve sobre feminismo e violência contra a mulher para o Estadão e faz parte do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop. 

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