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Você e a comida #4: como minha relação com a comida mudou toda a minha vida


Esse é o quarto texto da série Você e a Comida. Acompanhe!


Já falei aqui sobre as transformações que consegui fazer na relação que tinha com a comida. Contei como foi importante entender que comer não é o problema, mas o que eu como, qual a maneira e os motivos pelos quais o faço.

Esse é o último texto que escrevi para a série – mas isso não quer dizer que ela acaba por aqui – e nele conto como olhar para minha alimentação, os meios de produção e a maneira que a comida é tratada mudaram minha maneira de enxergar o mundo, o consumo e muito mais.

Além de tudo, e talvez o mais importante, divido com você o que descobri nesse percurso e que mais fez sentido para mim. O caminho é longo mas, com calma e juntas, ele pode ser muito prazeroso.

Indústria

Eu acho que está tudo errado em relação à indústria. Só que, égua, é muita areia pro meu caminhão. Não consigo resolver esse problema. Está errado, mas não sei nem como começar a pensar/atuar. O que eu penso é: vou fazer minha parte, o que consigo e está ao meu alcance, vou dar conta da minha comida.

Eu sou contra o 'maximizar lucro' - tô de saco cheio disso, na verdade. Maximizar lucro significa minimizar recursos de algum lugar (e algumas muitas pessoas). Isso não é um mundo colaborativo, não está certo.

Parece que as grandes empresas ganharam uma importância maior do que um Estado. A Coca-cola é maior, mais importante e movimenta mais dinheiro do que Zimbábue?

Coca-Cola
Lucro anual 8,5 bi
Quantidade de empregados: 130 Mil

Zimbabue
PIB: 7 bi
População: 13 Milhões
 

Tem alguma coisa de errado. Como é que países pequenos conseguem sobreviver neste mundo globalizado quando, na verdade, o mundo foi globalizado por estas empresas? Quem manda são elas!

Isso é só um desabafo, não consigo fazer absolutamente nada contra isso. O que posso fazer é favorecer o meu produtor local, pagar um pouquinho ‘mais caro’ pra ajudar uma pessoa ao invés de uma corporação. E em consequência me alimentar melhor, participar ativamente da produção dos alimentos que consumo e ainda criar laços com pessoas que vivem perto de mim.

Falar sobre indústria é também falar sobre alimentação, já que os preços dos alimentos ultra processados são sedutores de tão baixos e sua praticidade nos faz querer abrir mão de toda energia que gastamos produzindo nossas refeições, que já falamos antes.

Minimalismo

Essa questão da minha comida, de ter tempo pra preparar a energia que eu preciso, me querer sair dessa rotina doida da cidade, então tropecei na questão do minimalismo. E essa foi a ‘gincana’ da semana: fiz um “decluttering” (by Marie Kondo) semana passada – que é basicamente tirar da vida tudo aquilo que apenas ocupa espaço e nos faz gastar energia. Juro que vou fazer um bazar, tenho quase 40 blazers pra doar!

Quanto mais coisa eu tenho, mais coisa tenho para gerenciar, o que demanda muito tempo e afeta também a qualidade de vida. Diminuindo tudo fica tudo mais fácil.

Estou curtindo muito, faz parte do processo de valorar o que está a minha volta. E sobre mais tempo para dedicar ao que realmente importa no momento: minha relação com a comida.

Equilíbrio

No final das contas, cheguei a uma nova conclusão: melhor do que equilíbrio é fazer as coisas com significado. Se neste momento ser 'xiita' da alimentação tem significado para você, seja feliz. Eu estou super feliz nos meus não-radicalismos, o que me proporciona descobrir mundos novos.

Não posso fazer a escolha pelos outros. Do mesmo jeito que há 5 anos eu falaria que desmaiaria se ficasse uma semana sem carne, acho que todos tem os seus processos. Eu realmente acredito numa consciência coletiva e acho mais importante me preocupar com o meu processo do que com o do mundo (porque eu não consigo fazer nada efetivo para uma transformação imensa). Essa tem sido a minha busca, o que eu tenho que mudar na minha vida pra começar a praticar aquilo que está me fazendo bem e em que acredito.

Acho muito curioso como é bom ouvir pessoas que pensam igual, mas me questiono por que é que a gente não acredita mais nos nossos instintos e precisa ficar validando o que a gente acha certo com outras pessoas?

Sabe o que eu tenho descoberto também? Tudo aquilo que me foi passado na infância e que, em algum momento da adolescência/ primeira juventude, eu me distanciei e questionei, se tornou exatamente ao que estou voltando. Precisei conhecer terras distantes para descobrir que eu pertenço ao lugar de onde vim.

Com o passar dos anos consigo começar a enxergar a figura que está se formando quando começo a ligar os pontos. Vejo que tudo o que me foi passado como ensinamento me fez como eu sou hoje e não posso desprezar nada. É a minha história de vida e agora finalmente posso dar valor para ela, me apropriar dela. Tudo faz sentido, tudo e todos foram válidos.

Eu termino esse solilóquio doido entendendo um pouquinho a mais a dimensão da comida. Se antes eu acreditava que “comida é meu problema, tudo que eu faço reflete na comida”, hoje eu aprendi que “comida é minha solução, tudo o que eu como reflete no que eu faço”.

 

Final feliz

O que é final feliz? Eu resolver essa questão para o “resto da minha vida” (nossa, que peso!) ou eu estar bem comigo mesma? “Estar bem comigo mesma” é uma decisão diária. Tudo que compartilhei aqui não é pra servir de lição. Não quero que ninguém tenha a sensação de que estou dizendo “venci, olhem para mim”, porque não venci absolutamente nada.

Tem dias bons e dias ruins. Nos dias bons eu só curto o equilíbrio, felicidade e ar puro acima das nuvens - e ajudo quem posso. Nos dias ruins pego minha mochila e caderninho, visto o uniforme, e tento ver o que é que eu preciso aprender.

Não existe nenhum passo que nós tomamos para o “resto da vida”. Sempre iremos definir “o próximo passo”. Não posso dizer que tenho sucesso porque eu emagreci 30 kg (mas que ninguém precisa saber que eu já engordei 10 e que por acaso os últimos meses têm sido ruins).

Sucesso, para todas nós, deveria ser aquilo que fazemos de melhor com aquilo que está ao nosso alcance.

Às vezes o melhor que podemos é não fazer nada. Ou sobreviver ao dia. Nos resguardamos ou não resistir ao impulso, mas perceber as emoções internas. Pesando 150kg ou 55kg, não importa.

Muitas de nós pensam “se eu pesasse 55kg não teria mais problemas, seria a pessoa mais feliz do mundo”, mas as coisas não são assim. Temos que ser felizes hoje, do jeito que estamos, e pensar no que temos a viver. O problema de amanhã teremos sabedoria para resolver só amanhã. Hoje só temos sabedoria para resolver as questões de hoje – o que inclui planejar e pensar nas consequências)

Não tenho resposta nenhuma. Cada uma de nós sabe o que deve ser feito, só temos que nos ouvir.

Em alguns momentos a resposta vem conversando ou lendo alguma coisa diferente. Ali conseguimos despertar gatilhos internos ou insights. Quando falamos dos nossos problemas para o mundo exterior conseguimos ver que eles nem são tão terríveis assim.

Curta o processo, porque é disso que a vida é feita. Não temos que chegar a lugar nenhum.


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Lorena Jacobson Berzins, diferente de todo mundo desde sempre (e se descobrindo cada vez mais igual a todo mundo), quer mais do que nunca ter um trabalho com propósito (in love com a atuação de professora universitária), sabe que não pode mudar o mundo mas fica muito feliz quando consegue ajudar uma velhinha a carregar as compras.  Cheia de problemas internos e buscando sempre equilíbrio. Se virando nos 33, mas achando que está tudo dando certo.

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