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Como educar as crianças para além do padrão estético: uma entrevista com Lua Fonseca

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“Chizalum desde cedo notará — pois as crianças são muito perspicazes — qual é o tipo de beleza que se valoriza. Verá nos filmes, nas revistas e na televisão. Verá que se valoriza a pele branca. Perceberá que o tipo de cabelo que se valoriza é o liso ou ondulado, e é um cabelo que cai, em vez de ficar armado. Ela vai deparar com tudo isso, quer você queira ou não. Então, garanta que ela veja alternativas. Faça-a perceber que mulheres brancas e magras são bonitas e que mulheres não brancas e não magras são bonitas. Faça-a perceber que, para muitas pessoas e muitas culturas, a definição limitada de beleza não é bonita. É você quem mais conhece sua filha, e assim é você quem sabe melhor como afirmar o tipo de beleza dela, como protegê-la para que não se sinta insatisfeita ao se olhar no espelho.”

Trecho do livro Como Educar Crianças Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie.

Se quisermos olhar para um futuro em que as mulheres não sintam o peso dos pressões estéticas como hoje sentimos, precisamos acolher as meninas que estamos criando. Mas, afinal, como fazemos isso, no meio dessa enxurrada de informações e estímulos que emitimos a todo segundo para nossas meninas, reiterando padrões de beleza inatingíveis?

Aqui na Comum, temos olhado para isso com cuidado. Destrinchamos o assunto em outros artigos, deixamos sempre a porta da discussão aberta para trocas em nosso fórum — exclusivo para assinantes —, além de trazermos o assunto a tona também em vídeos. Para um futuro mais igualitário, apostamos que a educação, voltada para as questões de gênero e diversidade, é o caminho mais certeiro. 

E para jogar ainda mais luz à temática, conversamos com Luanda Fonseca, educadora parental, autora do No Drama Mom, e mãe de Irene, Teresa, João e Joaquim. Nas suas redes sociais, Lua ajuda outras mães a desconstruírem essa maternidade idealizada que tanto nos vendem e também divide as doçuras e agruras do processo de sensibilizar crianças para um mundo mais justo. 

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Meninas são ensinadas, cada vez mais cedo e de diversas formas — muitas delas silenciosas e travestidamente coerentes — que seu maior valor está na aparência. Como quebrar essa lógica dentro da educação?

É quase impossível a gente não olhar para as nossas filhas e não dizer “nossa como você está linda, como você está maravilhosa, como você está uma graça”. O elogio é muito mais fácil de ser colocado do que, por exemplo, o encorajamento. E esse tem sido meu exercício agora:  encorajar as meninas mais do que elogiar. Eu não acho que o elogio é um problema. O valor que o elogio tem é que faz com que as crianças cresçam sem entender que existem outras coisas que compõem a beleza delas. Aqui em casa muito rola a pergunta “mãe, eu estou bonita?” E eu digo que elas não precisam disso ou daquilo para ficarem bonitas porque elas já são. O que eu faço é questionar se elas estão se sentindo bonitas assim —  porque é isso que importa. É um exercício de desapego desde sempre. Nessa busca pela autonomia — principalmente das meninas —, deixo-as se vestirem do jeito que querem. E ai cada dia é um carnaval. Todo dia é um halloween. Elas saem parecendo um parangolé e eu faço o exercício de respeitar essas escolhas e incentivá-las. Porque eu não posso dizer, por exemplo, que uma delas não fez a combinação certa de cores ou peças. Esse é um valor meu, uma visão minha. Quando eu digo isso, torço com que ela se olhe de um jeito que o adulto olharia. Esse respeito às escolhas delas, no que elas vão vestir, como vão combinar e como irão se sentir diante dessas escolhas é  muito importante para que elas consigam se enxergar para além do “você está linda!”. Prefiro frases como “que legal que você conseguiu escolher sua roupa, que combinou essa blusa com esse vestido, que você se vestiu sozinha. Isso é mais importante. O elogio não é o problema exatamente, mas meu exercício tem sido o de encorajar mais do que elogiar simplesmente.

Por mais que em casa os estímulos e orientações sejam outras, na rua, nas escola, no parquinho ainda existe esse universo que vende um padrão estético que aprisiona — principalmente meninas e mulheres. Quando isso acontece, como você conversa com Teresa e Irene?

Sou uma mulher magra e elas me veem dessa forma. Como sou o referencial, para elas existe uma dificuldade de entender, por exemplo, outros tipos de corpo. Eu converso e digo que tem gente branca, preta, alta, baixa, gorda, magra. Tento naturalizar as coisas que falo. Elas vão crescer com a minha referência porque é a mãe que elas têm, mas aquilo que é diferente de mim eu tento naturalizar. E, assim, fazer com que sejam receptivas às diferenças. As duas têm cabelo liso, mas minha mãe tem cabelo crespo. Quando ela está por perto elas falam que o cabelo da vovó é crespo e eu explico que existem cabelos de todos os jeitos. Comecei a perceber, por exemplo, que eu cortava meu cabelo também para que as minhas filhas notassem que existe beleza no cabelo curto, já que todas as princesas têm cabelos esvoaçantes e muitas delas são loiras — que é um valor muito forte. Acho que para Teresa e Irena é importante ter esse desapego, sabe? De dizer “minha mãe sempre teve cabelo curto e se achava linda”. Essa é uma forma que eu tenho, são as armas que funcionam por aqui. Mas, de uma forma geral, acho que quando naturalizando o discurso, facilitamos para as crianças e elas se sentem muito à vontade de observar e perguntas as coisas. Ganhamos uma caixa de lápis com vários tons de pele e isso expandiu para elas essa possibilidade, de forma lúdica. Essa caixa foi super importante porque, assim, elas entenderam que é possível desenhar vários tipos de pele e passaram a incorporá-las naturalmente em seus desenhos — e eu fiquei extremamente feliz com isso.

A gente fala muito em como educar meninas para além das prisões estéticas, mas você também tem um esforço grande em sensibilizar o João com essa temática. De que forma essa diálogo acontece?

Com João a conversa é direta. Ele está com nove anos e já saca as coisas. É um menino muito bacana e não sei quanto tem de esforço nosso para que ele seja esse cara que ele é e quanto é da personalidade dele mesmo. João sempre foi muito tranquilo, muito aberto às diferenças. Entende que mesmo que o corpo ou o cabelo seja diferente do que ele considera bonito — porque ele já tem o gosto dele independente do que eu acho ou não —, é imprescindível que ele respeite.. Acho que João levará isso para a vida, para as suas relações, para as rodas de amigos. Mais adiante, quando começar a namorar, creio que ele se abrirá para outras coisas além dos padrões estéticos. Irá se abrir para coisas que ele acha interessante nas pessoas. Acho que com João a conversa é mais clara. Ele conseguiu compreender. E é engraçado porque ele é super careta. Durante anos ele só saia de casa de tênis, não usava chinelo. Recentemente quis cortar o cabelo curto porque disse que não gostava do cabelo comprido. Agora que ele está começando a se libertar de tanto que batemos na tecla de que nao importa: seja a roupa, seja o cabelo. Não importa. Ele é um cara bacana, ele precisa ser um cara que respeita as pessoas — e isso é que faz dele um menino lindo.

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A maternidade e a paternidade — em igual medida — também devem ser espaços ativos de transformação social. Pais, mães, educadorxs, tios, tias, avós, avôs: todo mundo que tenha contato com crianças pode agir como polinizador dessas mudanças que queremos semear por aí. Sem neuras, cobranças ou grandes metas, mas olhando com atenção para nosso entorno e entendendo no que podemos colaborar. Um passo de cada vez. Vamos juntxs?


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo, coordenadora de projetos com propósito e cientista poética. Certa feita, enamorou-se pela palavra inefável. Desde então, também mantém uma lista de pequenas coisinhas indizíveis.


 

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