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Mundo interno e autonomia afetiva: como podemos ser mais livres?

Andamos por aí com uma ideia de como as coisas devem ser. Querendo torcer o mundo para que ele seja como a gente quer que ele seja, como a gente acha que ele tinha que ser. E quando isso não acontece (e é claro que não acontece), nós sofremos. A nossa atenção fica, na maior parte do tempo, toda fora. No que, ao redor, podia ser diferente: a casa, o carro, a cidade, a vizinhança, os móveis, o trabalho, o/a parceiro/a. Como se todo o nosso bem-estar estivesse investido no que é externo. Como se não tivéssemos protagonismo sobre nossas emoções, nosso equilíbrio.

A mesma lógica opera nas nossas relações afetivas: entramos nelas com a expectativa de que o outro nos dê o que achamos que nos falta.

Que o outro cubra vazios, cure feridas, atenda expectativas, satisfaça desejos. O outro, provavelmente, estará ocupando esse mesmo espaço. De buscar em você tudo o que precisa. É a receita do fracasso. Um amigo meu usa uma boa analogia para isso: é como se dois amigos marcassem um papo no bar para contar um ao outro que estão cheio de dívidas e precisam de dinheiro emprestado. Falta para os dois, ninguém tem para dar.

Só que ao invés de dinheiro, estamos falando de eixo interno, emocional. Estabilidade, equilíbrio — que vem de dentro para fora.

Desenvolver autonomia afetiva é uma jornada para dentro de si. Uma busca por um espaço de firmeza e tranquilidade, onde estamos menos frágeis e vulneráveis à configurações externas.

Para nós, mulheres, é uma baita virada de chave. É descobrir que está tudo aqui dentro, que não nos falta nada. Que não é outra pessoa e uma relação que vai definir o nosso valor enquanto mulheres.

Não precisamos satisfazer expectativas da família, dos pais. Podemos trucar estruturas sociais que decantamos ao longo dos anos e que podem estar nos oprimindo sem a gente perceber: o amor romântico, ideais de como relação deve ser ou parecer, com que idade deveríamos encontrar alguém, a necessidade de ter filhos e constituir família.

"A gente pensa em autonomia emocional, e a gente quer estar bem. E aí começa a gerar essa noção de que a gente se isola do outro, que a gente fica independente do outro. Mas a autonomia emocional e afetiva, se a gente começa a cultivar ela, ela nos aproxima do outro. Acontece o contrário." — Stela Santin.

Autonomia afetiva é ganharmos lucidez para entender o que é realmente importante para nós.

Não é auto-suficiência. Não tem a ver com ficar sozinha, ou com ser independente e desapegada: com viver novos arranjos, poliamor, aventuras sexuais. Com nunca mais se relacionar monogamicamente. Pelo contrário. Tem a ver com se liberar de fachadas, regras impostas socialmente, aparências e formatos, e, a partir daí, se fizer sentido, entrar nas relações de maneira mais genuína, atenta e presente às próprias necessidades, com mais lucidez e disposição de oferecer.

Véu e grinalda, poligamia ou sozinha, não importa. O que importa é o que está por detrás, dentro, permeando você as suas relações.


Anna Haddad é co-fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

Nota da editora: a imagem central é uma colagem do artista Trash Riot.

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