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#20 Relações mais lúcidas: relacionamentos que nos ajudam a florescer

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Quando dizemos que amamos, dizemos também que queremos a felicidade do outro. Mas na maioria das vezes isso não é inteiramente verdade.

Dentro da perspectiva corriqueira de amor, das dinâmicas mais comuns das relações, o que queremos é a felicidade do outro de forma condicionada e oportuna. Queremos que o/a parceiro/a seja feliz, contanto que essa felicidade não nos traga nenhum desconforto ou incômodo. 

Não queremos esbarrar em ciúme, mal estar, medos. Queremos ser atendidos em todas as nossas expectativas, faltas e projeções. Queremos garantir que estaremos seguros e confortáveis na relação e evitamos, de todos os jeitos, confrontar nossos monstros internos.

Queremos, portanto, a felicidade do outro de forma condicionada.

 

"A pior maneira da gente estabelecer uma relação é pelo controle. De achar que o outro, agora, em função do nosso encontro, nos pertence. E aí a gente desenha um território, bota um arame farpado, uma cerca elétrica, e fala assim: agora você só se move aí, viu? Você se movendo aí dentro eu estou bem. Se você sair desse limite, eu morro. Isso é o nosso próprio sofrimento. Controlar o outro, ou achar que o outro pode ter um comportamento que nos dê segurança, é sofrimento. Porque é impossível."
— Marcia Baja

 

Muito provavelmente, do outro lado, o/a parceiro/a está fazendo o mesmo. Buscando, sem perceber, nos apertar para que a gente caiba num espaço delimitado, conhecido, de segurança.

Quando essa lógica opera — e ela opera em grande parte das relações, em maior ou menor medida — fica bem difícil florescer. Tanto as partes envolvidas, individualmente, quanto a própria relação em si. O que existe é uma sensação de solidez, rigidez, falta de movimento. O contrário de respiro e evolução.

Um outro caminho: relações mais benéficas

Mas como podemos estabelecer outras dinâmicas relacionais, diferentes da que aprendemos e treinamos praticamente a vida toda — e que todos estão praticando ao nosso redor?

Não é uma virada de chave, de uma hora para outra. É uma escolha, um treino de todos os dias.

Temos feito isso, passinho por passinho, nessa trilha de autonomia afetiva. Nesses últimos meses, mergulhamos numa jornada que passou por um olhar amplo para a cultura, o contexto em que estamos inseridas como mulheres dentro do tema afetividade. Olhamos um tanto, também, para nosso mundo interno, para começar a encontrar meios hábeis de cultivar um eixo, um centro nosso, sozinhas ou em relação. Conhecemos práticas que podemos usar para a vida toda. Aprendemos a nos ouvir e nos entender um pouco mais, dar nome às necessidades, estabelecer limites.

A partir desse lugar, de mais clareza social, consciência interna e autonomia, somos capazes de quebrar com a narrativa de amor que nos é imposta e escolher o nosso próprio caminho. Ou ainda construí-lo em conjunto com nossos/as parceiros/as.

Podemos sair de um espaço de felicidade condicionada para querer a felicidade genuína do outro: passamos a apoiar e impulsionar a pessoa ao lado, para que ela se possa se desenvolver e florescer, independentemente das nossas vontades autocentradas. Passamos a desejar que o outro seja genuinamente feliz, livre e inteiro. Começamos, também, a aspirar o mesmo para nós: que as nossas relações catapultem os nossos movimentos no mundo em vez de restringi-los.

E isso vira lei.

Primeiros passos

Quando abordamos esse tema, tudo fica um pouco etéreo, não palpável. Lemos textos, assistimos a vídeos, conversamos com amigas, mas não sabemos bem como transformar as nossas próprias relações, o nosso modo de agir.

Por isso, criamos um guia prático, de seis passos que podemos de fato dar em direção a relações mais saudáveis.

Vamos lá.

1. Estabelecer chão comum

Começamos as relações sem conversar sobre o mais importante: o que é uma relação boa, saudável para nós e para o outro. Engatamos na história conjunta sem sequer ter base compartilhada daquilo que estamos nos propondo a viver: namoro, amor, relacionamento, relação ideal. Será que estamos falando da mesma coisa?

Essa checagem é crucial. É claro que ela vem depois de uma clareza individual interna do que é uma relação saudável, que você queira ter naquele momento. Mas depois disso, é bem importante colocar sua visão na mesa e compreender a do outro. 

"Pra mim, uma relação saudável não envolve controle. Quero que você possa fazer o que quiser fazer dentro dos nossos acordos, sem que precise se reportar a mim o tempo todo." 

O exercício não é simples e é contínuo: tentar estar sempre na mesma página. Junto com isso, estabelecer contorno, limites de uma forma amorosa, mas logo de princípio.

2. Cuidar para que o "manifesto da relação" siga sempre vivo

Com o andar da carruagem, as coisas tendem a voltar para um lugar habitual: temos mil emoções, ciúmes, apego, nos sentimos dependentes do outro. Fora a correria da vida, que nos ajuda a colocar tudo no piloto automático. Voltamos então a operar do jeito que sempre operamos.

Mas é bem importante que as partes cuidem do que foi, desde o princípio, conversado, acordado como importante para a relação florescer. Isso não significa escrever em pedra, ou querer segurar regras com punho firme, pelo contrário! Cuidar do que é importante muitas vezes tem a ver com olhar com atenção, revisitar, conversar de novo, rever, flexibilizar. Mas nunca deixar o silêncio reinar e os acordos caírem num lugar de esquecimento.

Conversas habituais ajudam muito nesse processo. Com a periodicidade que fizer sentido na relação.

3. Auto-responsabilidade e intimidade com o mundo interno

Somos arrastados por milhares de emoções. Acontece, por mais maduras e centradas que estejamos. Vivemos momentos e momentos, passamos por dificuldades. Vamos sentir medo, insegurança, ciúme, isso é certo. O outro também vai.

A diferença está em dançar com esses sentimentos ou, do contrário, ver brotar e ver passar, sem causar o caos na relação ou apontar o dedo para o outro.

Aqui, as práticas de silêncio são o melhor caminho. É através delas que a gente aprende a não reagir de imediato a tudo o que vem à tona, aprende a respirar, olhar por outras perspectivas. A gente aprende a conhecer a natureza da própria mente e não confiar tanto em tudo que surge ali, todas as aparências. Ficamos menos volúveis, mais centradas.

Então, pratique. Um pouquinho cada dia, cinco minutos. As práticas que indicamos aqui, outras meditações, guiadas ou não guiadas, com música ou sem, com aplicativo ou sem. O importante é aprender a silenciar e olhar mais para dentro.

Sempre que puder, convide o/a parceiro/a a fazer o mesmo, junto ou separado.

4. Reconhecer necessidades e dificuldades. Saber fazer pedidos.

No processo, é claro que dificuldades surgem. A gente sabe que está sentindo um ciúme besta, mas não consegue superar, atravessar aquilo. Estamos nervosas, tristes, com raiva, mas não conseguimos transformar essas sensações porque estamos numa fase difícil.

É bem importante, a partir desse reconhecimento, estabelecer conversas francas com o/a parceiro/a. Expor a dificuldade, a própria consciência da dificuldade. Depois, pedir apoio.

Essa é uma virada no jogo: em vez de culpar a pessoa ao lado pelos nossos próprios obstáculos, podemos pedir, na parceria, uma mão para que possamos atravessar aquilo com mais facilidade. Aí, entram os pedidos e acordos:

"Me ajudaria muito se você não reagisse com raiva quando me encontra nervosa. Se eu te der uma resposta atravessada, saiba que estou fazendo o meu melhor, mas estou em um momento difícil. Se possível, tente não se aborrecer comigo: me aponte o que eu fiz com carinho."

"Estou com muito ciúme da fulana. Sei dos nossos acordos e confio em você, mas estou encontrando dificuldades aqui. Seria ótimo se você pudesse ser mais aberto e franco comigo sempre que encontrar com ela, isso me ajudaria a seguir mais confiante e aberta."

Não é passar a bola para o outro, culpar, julgar, exigir. Também não é colocar para fora, jogar no colo do outro, tudo o que você sente. Muito menos controlar ou fazer demandas, exigências. Os pedidos e acordos, nesse caso, são coisas que o outro pode, sem comprometer nada, sem ter que abrir mão, fazer para poder te apoiar no seu processo.

5. Cuidar da linguagem

Temos, em geral, uma comunicação bastante violenta. Falamos por entrelinhas, damos recados. Usamos ironia e sarcasmo a rodo. Não somos claros. Usamos muitos adjetivos e qualificamos o outro o tempo todo.

Cuidar da linguagem e tentar praticar CNV — comunicação não-violenta — é um ponto bastante importante para conseguirmos cultivar relações mais saudáveis. A CNV, por exemplo, nos tira de um lugar de ataque ou de vítima, e nos coloca num espaço de consciência, responsabilidade, empatia e igualdade com o outro lado: passamos a ter que entender o que sentimos para comunicar com mais clareza, auto-responsabilidade e cuidado.

Fizemos dois vídeos introdutórios sobre CNV que você pode assistir na íntegra (o primeiro vídeo aqui, o segundo aqui). Vale a pena pesquisar mais e começar a praticar dentro da relação (e convidar o outro para conhecer e praticar também, claro).

6. Checagem de dentro pra fora

Por último, é importante se checar internamente, de tempos em tempos, com algumas perguntas-chave:

Estou me desenvolvendo aqui, na relação? Essa relação me permite me desenvolver integralmente, como pessoa?

Meu/minha parceiro/a me tolhe, me limita? Ou eu mesma estou criando as minhas próprias barreiras, gerando dependência e apego?

O que posso fazer para impulsionar o meu próprio florescimento? Como posso impulsionar o florescimento do meu/minha parceiro/a?

A partir das respostas que surgirem, vale abrir uma conversa com o outro, colocando na mesa coisas que são importantes para você e que você gostaria que ele/ela/s olhasse com carinho e atenção no sentido de te catapultar, te incentivar. Do outro lado, também é importante fazer perguntas sobre o que, para ele/ela, é precioso e deve ser cuidado em conjunto.

"Música é uma coisa bem importante na minha vida agora. É importante para mim que você me incentive e cuide do meu desenvolvimento junto comigo, não me barre de ir nos ensaios e nos shows, me apoie e esteja comigo sempre que puder."

De novo: não tem a ver com exigir uma determinada postura do outro. Nisso, a linguagem faz toda a diferença: é convidar o outro para algo, é fazer um pedido, é compartilhar.

Não é simples, nem uma transformação de 1 mês, ou 1 ano. É um caminho de vida toda.

Dá trabalho, mas é bonito. É desafiar a lógica vigente, se emancipar e emancipar o outro. Desse lugar, de mais abertura, respiro e liberdade, surge um amor e uma parceira ainda maiores, diferentes: mais lúcidos, fortes, comprometidos. Não com a duração da relação, mas com a felicidade verdadeira de quem está ali, o que é bem diferente. 

Para todo mundo, é um espaço gostoso de experimentar: ele é mais leve, mais empático, menos tenso. E, para nós, mulheres, esse lugar de emancipação afetiva é mais que gostoso: é revolucionário. 

Vamos explorar ferramentas de autonomia juntas na imersão que acontece em São Paulo, nos dias 25 e 26 de novembro, com a facilitação da Marcia Baja. Não perde. Vai ser um encontro importante e transformador.

Seguimos juntas, sempre.


Anna Haddad é fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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