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#12 Nossa relação conosco: culpa, perfeccionismo e ansiedade

Esse é o último texto dessa trilha. 

A ideia da trilha foi um tanto diferente das outras. Ela foi lenta, parada. Não pretendia trazer grandes novidades, estaladas, insights. Pelo contrário: ela foi pensada pra fazer a gente parar. Respirar. Assentar. Entender que nem tudo precisa ser visto, revisto, mudado pra já.

Por isso, o último tema tinha que ser esse. O tema central da nossa vida: nós mesmas. Como nos vemos, como nos relacionamos conosco, como lidamos com as próprias identidades que construímos.

Alerta: nada precisa ser diferente. Esse, como todos os outros textos da trilha, é um texto de reflexão, de contemplação. Então, respira fundo e relaxa.

Padrões de comportamento

Cada uma é uma, claro. Mas existem construções sociais que nos fazem reproduzir determinados padrões de comportamento na vida.

Vou trazer aqui alguns dos padrões que replicamos e que, de certa forma, travam nosso dia a dia, nossas relações.

Nossa culpa não é só nossa

Sentimos culpa o tempo todo, de formas óbvias ou mais sutis, quase que invisíveis. Mas se prestarmos atenção, ela está quase sempre lá.

É um sentimento feminino tipicamente cristão, que nasceu com a Eva - grande culpada pelo fim do paraíso e pela condenação de toda a humanidade. A lógica da culpa foi perpetuada na educação de mulheres durante séculos, e mora no nosso inconsciente coletivo.

A culpa faz parte do inconsciente coletivo feminino. O sentimento de responsabilidade da mulher com a família é uma coisa espantosa e brutal.
Lya Luft

Olhando um pouco pra história da nossa educação, os estabelecimentos destinados à formação das elites femininas visavam transmitir às mulheres uma cultura escolar católica de tradição francesa. Esse tipo específico de cultura escolar consiste em um conjunto de regras e regulamentos disciplinares inspirado nas formas de socialização das Demoiselles francesas no século XVIII, e os valores transmitidos eram calcados na noção de pecado, da qual o sentimento de culpa é correlato.

No Brasil, várias escolas destinadas ao sexo feminino adotaram essa cultura, porque eram dirigidos por freiras francesas que tinham imigrado para o Brasil na época da Terceira República, ou então porque reconheciam a eficácia desse modelo na formação de alunas distintas.

Até os anos 1970, a cultura escolar transmitida por esses estabelecimentos de elite, apesar de apresentada como universal, padecia de um viés de gênero extremamente marcado, que termina por desembocar na estruturação de papéis sociais separados — o que inspirou a Simone de Beauvoir a conhecida frase, “não se nasce mulher, nós nos tornamos mulheres".
Exame de consciência, sentimento de culpa e formação de um habitus feminino

Em uma de suas crônicas, Maria Lucia DAHL evoca essa “velha culpa que me acompanha desde o colégio Sion, que me faz sentir culpada por tudo, que me provoca uma angústia à qual nenhum analista consegue dar jeito, conduzindo-me ou à roda-viva ou à depressão profunda”.

Uma das práticas morais centrais nos colégios de mulheres era o chamado exame de consciência, que sugeriam que os professores instruíssem as alunas à "examinar sua consciência ao cair da noite, evitar os hábitos culpáveis, a detestar os vícios e a cultivar as virtudes dignas de um cristão”. Detalhe: a mesma prática não acontecia  nos internatos masculinos onde os alunos não se destinavam ao clero.

Esse teco de história é só pra contextualizar anos e anos de ensinamentos de práticas de culpa: fomos incentivadas nesse lugar por séculos a fio.

Hoje, reverberamos culpa nas relações e no sexo, na família e na maternidade.

Chegamos esgotadas no fim do dia porque precisamos trabalhar, educar os filhos e ainda sentimos culpa quando encontramos a casa bagunçada. Sentimos culpa quando passamos muito tempo no trabalho ou somos promovidas porque não estamos sendo boas mães. Sentimos culpa quando somos assediadas. E daí por diante. Uma culpa que é nossa e não mora - de jeito nenhum - nos homens.

Podia ser melhor, eu posso ser mais

Autocrítica dura, julgamento pesado, perfeccionismo. Vejo esse padrão de comportamento em quase todas as mulheres com quem convivo, e, aqui na Comum, noto como é essa dureza interna uma das principais causas de sofrimento das mulheres.

Claro que a gente pode se impulsionar para metas e vontades. Mas existe o caminho do julgamento e da autocrítica e o caminho do contentamento e da autocompaixão. O que aprendemos, culturalmente, foi nos movimentar através da cobrança, do tensionamento, de motivações extrínsecas, da dureza:

A gente acha que, se a gente não se critica, a gente vai paralizar. Então, a gente vive numa cultura que nos ensina que a crítica ainda é o grande motor de mudança. Que a gente precisa ser rígida com a gente, que a gente precisa se cobrar. E por trás disso tem aquela mensagem de que nós nunca somos boas o suficiente.
- Caroline Bertolino, no vídeo sobre autocompaixão e autocrítica - 

Também, quando nos olhamos com óculos de dureza, certamente estamos fazendo isso com os outros. A medida de acolhimento que temos conosco é a que somos capazes de dar pras pessoas ao redor.

Não é uma tarefa fácil pra nós. É um caminho de aprendizado pra vida. Não à toa nossa primeira trilha por aqui foi sobre autocompaixão. E o tema vai aparecer várias e várias vezes nas nossas vidas. Então, vamos com calma. Identificar quando estamos nos exigindo demais, nos julgando com dureza (ou os outros), aceitar e compreender limitações é o primeiro passo pra desprogramar uma mente habituada a criticar. 

E se ainda não espiou a trilha de autocompaixão, vem aqui pra fazer ela todinha, de cabo a rabo.

Autocentramento: só eu e meu viés das coisas existem

Um outro olhar possível pra autocrítica e pros julgamentos que lançamos pros outros é a do autocentramento - um mal que compartilhamos como humanidade.

O autocentramento é essa praga que nos faz ignorar o outro e suas infinitas possibilidades. Quando nos concedemos o direito de criticar supostas falhas alheias, condenar seus comportamentos, julgar o que deveriam ou não estar fazendo, posso diagnosticar com alguma certeza que estamos vivendo um surto de autocentramento. O autocentramento que me ataca é uma fixação exagerada na minha própria paisagem, aliada a diferentes graus de indisposição de incluir o outro. E ainda saímos por aí querendo paz. Como seria possível viver uma experiência de paz?
- Lama Padma Samten - 

É comum agirmos de maneiras autocentradas em pequenas coisas, em diversos níveis. Quando falamos nisso, logo vem à cabeça exemplos conectados à atitudes autocentradas. Isso também, mas podemos manifestar autocentramento de outras formas, como nas nossas emoções, por exemplo.

Quando sentimos algo - raiva de alguém, por exemplo - é como se acreditássemos que só aquela perspectiva existe e só aquele sentimento é o possível, válido, real. Entramos em uma bolha de realidade: a nossa. Temos grande dificuldade de estourar essa bolha, respirar fora dela, entender que - apesar de estarmos sentindo aquilo e aquele sentimento ser sim, válido - existem outros viéses e sentimentos possíveis.

Autocentramento é algo mais amplo que egoísmo. Fala de uma visão tolhida, restrita, limitada ao eu e às experiências desse eu.

O resultado desses padrões de comportamento combinados é do mais variado: ansiedade extrema, desconexão, falta de empatia, agressividade, dificuldade em se relacionar com o outro, doenças físicas e mentais.

Ao extremo, estamos provocando catástrofes universais. Autocentrados, com uma visão restrita e pouco empática, agimos de formas tais e tomamos de decisões que não levam em consideração o bem comum, das pessoas e do ambiente em que vivemos.

Estamos, coletivamente, gerando resultados que, individualmente, ninguém quer.
- Otto Scharmer -

Para onde ir, o que fazer?

Lugar algum. Bem aí, onde você já está.

E essa é uma visão muito, muito importante. 

Quando falamos sobre mundo interno e começamos a descascar a cebola, dá um desespero de ver quanto trabalho tem pra ser feito. Mas encarar o trabalho com algo obrigatório, mais uma linha pra lista de afazeres não é uma boa visão.

Se transformar é um trabalho duro e urgente? Sim. Mas é um trabalho bonito, pra vida toda, e deve ser realizado com comprometimento e leveza.

Da pé. Basta a gente querer e ir colhendo, no caminho, nossas ferramentas hábeis pra transformar visões internas, ter o interesse e a curiosidade de investigar nosso mundo mais profundo e disponibilidade de mudar.

Então, sem essa perspectiva de que algo tem que necessariamente mudar, de autocrítica e resultado, e sim com uma outra de possibilidade, vivacidade e curiosidade, trago aqui ferramentas que eu tenho tentado usar e desenvolver, que tem sido minhas parceiras nessa caminhada.

1. Comunicação não-violenta: estou engatinhando, pouco a pouco, mas já notei que é um caminho pra vida. Pra quem quer se aventurar, indico o livro do Marshall Rosenberg (pdf do livro aqui). Depois dele, a prática é a chave. Estar em grupos nas redes que falem sobre isso, de pessoas que são referências nacionais (pra mim, o Dominic Barter) e suas próprias (pra mim, Giovana Camargo, Alê Marcuzzi, Ana Terra, Carolina Nalon, entre outras mulheres). Também, participar de grupos de prática.

Pra quem quer começar, botar um pezinho lá, recomendo os vídeos da Gi Camargo (esse e esse) e o curso da Carol Nalon, Caminho da comunicação autêntica.

2. Práticas de silêncio: não precisa ser budista nem conhecedor do dharma. As práticas de meditação são ferramentas poderosas pra gente desprogramar uma mente viciada, discursiva, cheia de maus hábitos, ansiosa e caótica. Sou uma péssima meditante, admito. Não consegui ainda meditar rotineiramente, todos os dias. E tudo bem. Vou aos poucos, como dá.

Na minha experiência pessoal, o silêncio me dá mais respiro, centro nas atividades da vida. Me ajuda a cultivar um estado de ser no mundo mais relaxado, estável e vivaz.

Pra quem quer começar, como eu, sugiro explorar técnicas e métodos. É uma pesquisa, mesmo. Encontrar amigos que meditem, conversar sobre o assunto, baixar alguns apps de meditação guiada, são possibilidades. Eu gosto muito das práticas guiadas da Jeanne Pilli e da Carol Bertolino.

Alguns cursos online também, conectados ao budismo, podem ser um bom jeito de se conectar com temas transversais de mundo interno. Esses aqui, da Tara Brach e do Tsoknyi Rinpoche foram recomendações da Carol Bertolino.

3. Autocompaixão: volto sempre aqui porque, pra mim, tem sido a base de tudo. As minhas referências no tema: Cris Neff e, aqui no Brasil, a Carol Bertolino.

Em contato com elas aprendi que pra oferecer, pra cuidar dos outros, preciso cuidar de mim antes. Preciso estar bem. É a metáfora da máscara de oxigênio: primeiro coloque em você, depois na pessoa ao lado. Os ensinamentos da Carol, sobre autocompaixão, e as práticas que ela traz nesse sentido, foram muito, muito importantes pra mim, e seguem sendo uma baita ferramenta no dia a dia.

Se quiser saber mais, assiste esses vídeos lindos que fizemos com ela pra trilha que rodamos na Comum há pouco tempo.

4. Ativismo compassivo: é um tema novo, mas que faz todo o sentido pra mim. Tem a ver com como podemos olhar pra ferramentas disponíveis (como a CNV, por exemplo) e desenvolver formas eficazes de lidar com algumas lutas, que não nos endureçam ou nos mantenham frequentemente em uma posição de ódio e reatividade.

Sobre o assunto, recomendo um curso online bem bacana da Sandra Kim, fundadora da plataforma Everyday Feminism. 

Vamos trocar?

Esses são temas pros quais estou olhando no meu processo de transformação. Quero saber de vocês. Quais os caminhos? Quais as ferramentas? Quais as dificuldades?

Vamos trocar lá no fórum? Espero vocês.

Seguimos juntas, sempre.


Anna Haddad é fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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