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#13 “Eu sou meu corpo”

Um relato sensível sobre alimentação, emoções, padrões estéticos e gordofobia. 

O corpo é uma caixa de mistérios e, bem da verdade, nem o mais incrível dos cientistas tem plena certeza de todo o seu funcionamento. Corpo também é tabu, flertando com o pecado e o proibido, uma caixa de pandora. Sexo, menstruação, pelos, marcas, gerar ou não uma vida, sangue, hormônios, envelhecimento, formatos, escolhas, estereótipos de gênero. A pele que a gente habita é cercada de regras, ditadas pelas normas patriarcais. E se essa nossa embalagem precisa sempre mostrar ao mundo que estamos dentro dos padrões, é “normal” que passemos a ver a alimentação como mera ferramenta para que alcancemos esse objetivo: o corpo ideal — um pacote em que não há nada que sobra, com a quantidade de carne e gordura exata, que é cada vez mais plástico, cada vez menos humano, cada vez mais irreal e inatingível.

Essa idealização acaba por nos desconectar de nosso próprio corpo, gerando angústia, descontentamentos, repulsa, paranóia e nos adoecendo. Com tanta pressão, como podemos, então, olhar para o alimento de forma benéfica e amorosa?

Desde pequenas somos bombardeadas com a ideia de que nossos corpos são inadequados. “Você precisar perder cinco quilos!”, “sua barriga precisa ser chapada”, “você não deve ter pelos, estrias, celulites. Seus peitos devem ser firmes, sua bunda durinha, sua cintura fininha, suas coxas não devem tocar uma a outra”. A capa da revista, a passarela, o anúncio da televisão davam (e ainda dão) um recado claro: seja magra, jovem, branca. Não existe pluralidade ou democracia na imagem que nos é vendida.

Nessa busca por adequação, consumimos mais e mais, na tentativa de apaziguar as sensações de não pertencer. Moda, cosméticos, cirurgias plásticas, academia, dietas: o lucro de diversos segmentos de mercado se faz em cima do nosso sofrimento.

E então percebemos que as prisões estéticas são uma das mais bem-sucedidas manobras do patriarcado, em específico no que diz respeito à magreza, como explica Naomi Wolf:

"Uma cultura focada na magreza não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada".

É dentro desse contexto que entendemos o corpo magro como sinônimo de boa conduta, sucesso, saúde, beleza, retidão moral. O emagrecimento é sempre celebrado e o ganho de peso condenado. Olhamos para o alimento como meros números, calorias dentro de uma contagem diária. Vemos a refeição como um momento de tortura: suprimimos desejos em nome do manequim. Quero comer isso, mas preciso entrar na calça 36. Preciso? Realmente precisamos?

Prisões estéticas, prisões estáticas

Quando reconhecemos todas essas estruturas que nos aprisionam e nos desconectam de nossos corpos, passamos a compreender que o corpo não é estático e vai muito além do estético. Pense no seu corpo como um rio. A água que corre vai ditando seu formato. O rio às vezes se expande, às vezes estreita-se. Nas fases da lua, marés, chuvas e períodos de seca, o rio vai mudando durante seu percurso, e ainda assim é o mesmo rio. O corpo flui, é feito de ciclos, é uma força da natureza. As mudanças que ocorrem em nossos corpos são processos naturais, ainda que a instabilidade nos assuste.

É normal envelhecer. É normal aumentar de peso após uma gestação, ou ao longo dos anos. É normal que seu corpo aos 35 não seja igual ao seu corpo aos 20. Nesse processo de reconectar-se é interessante criar outros referenciais. Se as revistas só nos mostram imagens retocadas, que não falam com a realidade, busquemos nós a realidade. Observar projetos fotográficos de mulheres que não retocam fotos, criar um feed no Instagram de mulheres de diversos locais, com corpos variados. É somente através dessa representatividade real e orgânica que conseguimos compreender que o mundo não se divide em pessoas magras e gordas. Existe uma infinidade de corpos, nos mais diversos formatos e tamanhos. Celebrar essa diversidade nos ajuda a reconhecer nosso próprio corpo. O autorretrato, por exemplo, é uma ferramenta muito útil nesse processo.

Ao tirarmos nosso foco do culto à magreza, as relações com a comida também se modificam. Comida constrói o corpo, mas não só nutricionalmente. Os aspectos culturais e simbólicos fazem parte dessa construção. Interiorizamos as regras alimentares — as primeiras dietas para controlar e reduzir peso data de mais de 2.500 anos — e acabamos por colocar uma carga negativa em alguns alimentos.

Um exemplo disso é quando chamamos um momento agradável de degustar um doce de "gordice". A preocupação em ganhar peso ao comer um doce torna-se maior que o momento de prazer — e aqui vemos o que foi dito anteriormente: se o doce engorda, e engordar é entendido como uma falha moral (culpa, gula, pecado), aquilo que é relacionado com o corpo gordo se torna um demérito, um deslize.

A busca pelo corpo magro e a gordofobia

A carga negativa que o corpo gordo carrega é tanta que sem pestanejar nos submetemos às mais diversas dietas. A vida passa a girar em torno da contagem de calorias, escolha minuciosa de alimentos, o sabor e o prazer em se alimentar deixam de ter importância.

A gente se alimenta e se exercita não por prazer, mas por um objetivo: não ser gordo.

Toda essa aversão ao corpo gordo tem um nome: gordofobia. A gordofobia é uma opressão estrutural que marginaliza o corpo gordo, tornando-o palco para a chacota, o desprezo e ódio. O corpo gordo é invisibilizado, patologizado, impedido de ocupar os espaços públicos e privados por falta de acessibilidade, é alvo de discriminações e é constantemente estigmatizado.

As desculpas para que a gordofobia continue sendo praticada na nossa sociedade são diversas, mas a principal é o falso discurso de se preocupar com a saúde do indivíduo gordo.

É através da conscientização de que o corpo gordo é um corpo válido e cheio de possibilidades que conseguimos transformar as ideias gordofóbicas cristalizadas em nossa cultura.

Um corpo gordo não é um castigo. Não é impedimento para que se dance, produza, ame, sinta. Esse corpo existe, e merece ser amado e celebrado.

Quais outras coisas poderíamos fazer se não estivéssemos tão focadas em controlar nossos corpos? Como seria se olhássemos para nós mesmas com o carinho que olhamos para nossas amigas? O que mudaria no nosso jeito de comer? Em que estado de espírito nos sentaríamos à mesa para comer se deixássemos de lado toda essa bagagem pesada do patriarcado, dos padrões corporais, das imposições estéticas?

Respeitemos o tempo e as prioridades de cada um, mas que nossas prioridades não andem de mãos dadas com o sofrimento, a tristeza e a frustração.

Deixe o rio correr.


 

Rachel Patrício, 33 anos. Ativista pela luta anti-gordofobia e ex-estudante de Nutrição da Unifesp, acredita que saúde e bem estar existem em todas as formas e tamanhos.
 

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