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#21 Comida: um ato político

Sagrado: tocar com cuidado todo o universo que é a comida. Você já parou pra pensar nisso?

Antigamente, a relação com os alimentos era considerada mágica. Nossa ancestralidade olhava a natureza para entender como ela funcionava e só então a adaptava as suas produções. Sempre numa relação de harmonia -- com os povos sendo parte da natureza e não donos dela. Também foi lá atras, há dez mil anos, no desenvolvimento da agricultura pelas mãos das mulheres, que passamos de seres humanos desagrupados ao que somos hoje: comunidades.

Desde então, a roda do plantio não parou de girar.

Mais tarde, já nos séculos recentes, essa lógica de produção agrícola comunitária foi substituída por uma lógica de mercado -- primeiro como escambo e saques de especiarias e então como moeda. Depois, a Revolução Industrial trouxe as máquinas que tornaram possível a intensificação da agricultura até chegarmos à Revolução Verde, na década de 60, com o uso de agrotóxicos, máquinas intensivas, monocultura, produção para exportação -- e não mais para alimentação dos povos.

Hoje comer virou um ato político. Entretanto, se pararmos e pensarmos além da nutrição corporal, o que colocamos no prato também alimenta uma cadeia produtiva que faz com que cada item chegue a nossa mesa.

Mas, afinal, sabemos quem estamos nutrindo?

A agricultura brasileira se transformou no agronegócio do país. Nessa mudança, os agricultores passaram a meros produtores -- perdendo autonomia frente àquilo que plantavam. Sai o cuidado com o plantio e entra a produção em massa: toneladas e toneladas de alimentos cheios de agrotóxicos. O agro não é pop, como tentam nos mostrar as propagandas televisivas.

Se virarmos essa moeda, enxergaremos um outro lado perigoso que nos mostra que entram em nossas casas os alimentos com maior quantidade de pesticidas do mundo. Fraca fiscalização, legislação ultrapassada e desoneração de impostos fazem com que encabecemos esse ranking, numa posição que traz seríssimos riscos à saúde da população. Para se ter uma ideia, um levantamento feito pela Anvisa aponta que quase 30% dos principais alimentos da cesta brasileira apresentam irregularidades no uso de defensivos agrícolas.

E aí os alimentos orgânicos aparecem na linha do horizonte como a solução perfeita para essa equação. Acontece que se na superfície a ideia é linda, ao darmos um mergulho mais profundo vemos uma faceta indigesta: a injustiça social.

Para dar conta do recado, a agricultura familiar dá lugar ao agronegócio. Nesse jogo, milhares de agricultores vem suas cargas de trabalho aumentarem, suas rendas caírem e a injustiça social sobrar. É uma conta que não fecha.

Fora dessa curva, surge um novo movimento que promete trazer mais esperança aos nossos pratos. A agroecologia está se articulando em rede e se organizando contra os modelos convencionais de produção. Ela traz no seu DNA uma sociedade menos consumista e mais solidária, pautada no bem-viver. Agricultoras e agricultores olhando para um manejo sustentável da terra e para o cuidado da perenidade dos ecossistemas.

Para esse penúltimo conteúdo, sugerimos como prática que olhemos para nossas sacolas de compras e nos questionemos quem estamos nutrindo quando nos alimentamos. A ideia não é carregar mais uma culpa, mas abrir a possibilidade de pensarmos além e, aos poucos, se sentirmos o chamado, irmos mudando nossos hábitos alimentares também pensando na cadeia que produz o que chega a nossa mesa. Que tal, nas feiras da sua região, prosear com os expositores? Pergunte de onde vem o que você come, quem produz, qual a distância, qual a origem das sementes. Assim, saberemos o que estamos financiando ao consumir esse alimento.

É um bate-papo inicial, mas que pode abrir portas para que nos alimentemos de um jeito mais consciente -- e amoroso.

Eu te espero no fórum para continuarmos essa conversa.


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Nessa trilha, é editora-chefe, participante e caseira. Esse texto foi escrito com a ajuda da Muriel Duarte, parte da equipe da Comum e militante da agroecologia.

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