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Como e por que comecei a meditar: dicas para uma vida melhor

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Passei a vida achando que meditar era besteira. Que era coisa de hippie, de gente zen, que não era pra mim. Eu era ativa, articulada, ocupada. Meditar para quê?

Hoje, vejo: essa confusão é uma confusão constante de muitas pessoas desconectadas do real significado do silêncio, da prática. Fui aprender muito depois: a gente não medita para ficar passiva, mansa. A gente medita para não ser arrastada por aí pela mente, quase como se fossemos um corpo sem dono (até por isso, quanto mais ansiosa, ativa e agitada você é, mais faz sentido meditar).

Essa metáfora, do arrastamento, foi a que me esclareceu algumas coisas e me fez querer praticar. Ouvi a mesma metáfora depois, algumas vezes, reeditada, e ela faz cada vez mais sentido. O Lama Padma Samten, lama budista brasileiro, compara a nossa mente habitual a um cachorro vira-lata andarilhando afobado pelas ruas em busca de coisas primárias - comida, abrigo, conforto - sem olhar muito ao redor.

E é exatamente isso. A mente que desenvolvemos nos tempos de hoje é uma mente que não é a nossa, natural. É uma mente vira-lata: quer encontrar coisas, o tempo todo, para se engajar. Busca estímulos externos a todo o momento, e vai para onde brilha mais. Quando se cansa, fica entediada, passa para próxima atividade, pensamento, narrativa. E assim vai, a vida toda, pulando de galho em galho. 

Mas existe outro estado de mente possível. Um estado que, segundo os mestres orientais, é o estado natural. Uma mente presente, focada, relaxada e vivaz.

Quando ouvi esse combinação de adjetivos todos juntos pela primeira vez, achei impossível. Relaxada e focada? Como?

Entendi, então, que eu confundia foco e produtividade com tensão, com dureza. Essas coisas vinham num pacote: eu vivia por aí num estado constante de tensão, sem nem perceber.

A partir de então, comecei a meditar. Com algumas poucas orientações de praticantes ao meu redor, uma ou outra lição de mestres, fui entendendo, através da prática de silêncio, o que é que aquilo significava.

Então, compartilho aqui aprendizados preciosos para quem está começando ou quer começar:

1. Meditar não é dormir

Durante a prática, é sim importante alcançar um estado de relaxamento, do corpo e da mente. Mas relaxar não é dormir, nem pescar. Relaxar, na meditação, tem um sentido profundo, de soltar as tensões para então aprendermos um outro jeito de estar no mundo.

2. Meditar não é ficar com a "mente vazia"

É uma missão "quase impossível" esvaziar a mente. A prática de meditação tem a ver com o exercício de observar a mente, ficar mais íntima e amiga dela. Num processo simples, só observar os pensamentos que brotam ali e escolher não seguir com eles é uma prática meditativa. Em inglês, são os famosos 3 erres: relax (relaxe), release (solte), return (retome). 

3. A gente não medita para "ficar zen" ou "ser mais fria"

Meditar não é coisa de quem quer ficar de boa, passivona. Pelo contrário. Quando a gente medita, estamos praticando não ficar refém da mente habitual, discursiva, que se engaja com tudo, cria narrativa sobre tudo, classifica, julga. Estamos praticando não parar de pensar, mas sim criar uma habilidade de escolher se vamos nos agarrar ou não a um pensamento ou apenas assisti-lo brotar e passar.

4. Meditar nos ajuda a ter mais presença

Quando praticamos isso, de não nos deixar arrastar pelos pensamentos e emoções, estamos praticando uma mente mais focada e vivaz. Estamos praticando presença.

Depois de um período, para mim, ficou clara a diferença: apesar do contexto, da situação, ainda que eu estivesse preocupada, nervosa, ansiosa, eu estava mais ali. Minhas falas, minhas respostas, minhas ações, minhas escolhas passaram todas a fazer mais sentido, estarem mais afinadas comigo. Eu passei a cometer muito menos "gafes", "furos" ou fazer coisas das quais eu me arrependia depois - simplesmente pelo fato de que eu não era mais tomada, arrebatada pelas minhas emoções. Elas estavam lá, mas eu também.

5. Dá para combinar relaxamento e atenção

Meditar é um grande treino para isso: atingir esse estado de mais relaxamento, que traz, ao invés de sonolência ou tédio, presença, atenção e vivacidade. Sim, é possível ter muita atenção e foco a partir de uma base de mente e corpo relaxados. Muito mais que a partir da tensão e da rigidez. E isso é incrível.

6. Vá devagar

Quando a gente começa, dá vontade experimentar mil técnicas, participar de vários workshops, mas, daqui, a minha experiência é a de que o minimalismo nessas horas conta ao nosso favor.

Comece devagar. Se apresente pra sua mente. Encontre um canto na sua casa, compre uma almofadinha de meditação que te deixe confortável. Tente estabelecer uma rotina diária, ainda que de 5 minutinhos. Comece com a prática básica de simplesmente fazer silêncio, respirar, ir encontrando um estado de relaxamento do corpo e, depois, observar a mente, como se ela fosse um rio que corre e você, um observador à margem do rio. Sempre que um pensamento ou uma emoção brotar, um barulho ou algum estímulo externo te desconcentrar, uma dor, um desconforto, use os 3 erres: relaxe, solte e retome a prática. É isso. O caminho de evolução da prática, com o tempo, é encontrar relaxamento, depois conseguir foco, e depois sustentar uma estabilidade desse foco.

Um baita trabalho, mas que vale cada minuto, pra vida toda.

Seguimos conversando sobre esse assunto no fórum, e trazendo aqui práticas de meditação para fazermos em casa e compartilhar depois. Passa lá e conta sua experiência e suas dificuldades, seus medos e duvidas.

Seguimos juntas.


Anna Haddad é fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

 

 

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