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#9 Apego e dependência: vamos conversar sobre isso?

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Chegamos à metade da trilha de Autonomia Afetiva e talvez toquemos, agora, num dos assuntos mais truncados, mais difíceis de escarafunchar. Fomos programadas para o apego e a dependência e não é fácil se desvencilhar da ideia de que precisamos de parzinho pra viver. Toda a cultura pop nos mostra o tempo todo que encontrar o amor é a chave da porta para a felicidade. Não só isso: vivemos em uma sociedade que baseia suas relações afetivas em um ideal de amor romântico — como destrinchamos na primeira fase da trilha. Há pressão por todos os lados para que se viva em casal. E, sim, essa expectativa de que formemos casais é para todo mundo, mas sabemos que é muito mais acentuado para mulheres, certo?

Esse texto é um primeiro mergulho nesse tema delicado e urgente, que merece ser olhado com cuidado, com tempo e qualidade. Vamos juntas? 

Junto da pressão romântica social que já abordamos e que aqueceu nossas conversas lá no fórum, somam-se as expectativas de papel social de gênero e a forma como nós mulheres somos criadas e temos uma receita infalível para a insatisfação. Ora, crescemos ouvindo, vendo, lendo por aí que há tudo de errado conosco. Ler revistas femininas, por exemplo, serve para nos dar uma constatação irrefutável de que temos milhões de defeitos a serem tratados.

Nada nunca está bom, sempre precisamos mudar. Ok, já temos hoje em dia publicações mais humanas voltadas para o público feminino, mas ainda falta muito para que haja um incentivo social para nos sentirmos bem. Nesse contexto, crescemos sem autoestima, achando que estamos constantemente precisando consertar algo.

Outro agravante dessa situação é o fato de que, enquanto mulheres são sempre colocadas para baixo, homens são criaturas fenomenais. Sendo assim, no senso comum, o máximo de realização feminina é receber a aprovação de um homem. E, por mais que racionalmente a gente negue essa ideia, frequentemente não conseguimos transferir essa compreensão para o emocional.

Continuamos nos sentindo defeituosas, incompletas e buscando aprovação masculina para nos sentirmos bem conosco mesmas. Enfie isso tudo num relacionamento e fica bem complicado ter uma relação de igual para igual com homens. Isso acontece, é claro, em relações amorosas entre mulheres também, com a diferença de que, nesse caso, o contexto social e as expectativas são outras. 

Essa falta que às vezes sentimos — por não enxergamos que já temos aqui dentro tudo que precisamos — pode nos fazer buscar no outro um ponto de preenchimento. Se nos vemos incompletas e precisamos de alguém ou alguéns para nos dar essa firmeza na base, ficamos reféns de que tudo do lado de fora corra como esperamos. E a verdade é que não temos esse controle. Aí, nutrimos um apego e dependência. Precisamos que a outro ou o outro estejam ali para que sejamos reconhecidas, vistas, para que nos sintamos completas ou para que estejamos bem.

Nas relações amorosas entre mulheres e homens, o padrão já é desigual por si só. Embora, é claro, diferenças individuais se apliquem, a maneira como mulheres se relacionam consigo mesmas tende a ser muito diferente da maneira como homens se relacionam com eles mesmos. Isso afeta a maneira como ambos irão se comportar em uma relação, desde o início. Acabamos criando expectativas diferentes, ficando ansiosas sem necessidade e muitas vezes aceitamos relacionamentos medíocres ou até abusivos, pois teimamos em acreditar — ao menos emocionalmente — que qualquer coisa é melhor do que ficar sozinha.

Considerando todos esses fatores jogando contra, como nos desprogramar do apego e da dependência de relacionamentos que tão fatalmente desenvolvemos ao longo de nossa vida? Como nos livrar da sensação de que precisamos estar em um relacionamento ou ao menos buscando um?

Costumo dizer que ficar feliz sozinha não é um conceito filosófico mirabolante nem uma sensação permanente. Ficar feliz sozinha está nas pequenas coisas. O que você faz quando está sozinha? Com que frequência você fica sozinha por opção? Como você se sente quando não tem companhia para fazer algo que gosta? Você sabe do que você gosta?

Muita gente está tão acostumada a estar sempre em movimento e a se dedicar ao externo — especialmente a relacionamentos amorosos —, que nem se conhece. Não sabe do que gosta. Quando você fica sozinha, você sabe o que fazer? É disso que falo quando defendo que ficar feliz sozinha, sem precisar se apoiar em um relacionamento amoroso, é um exercício das pequenas coisas. É você estar sozinha em casa e ter atividades prazerosas para fazer. E aí isso varia de pessoa pra pessoa.

A ideia aqui é saber (descobrir) do que você gosta. Ver filme, ler livro, desenhar, costurar, pintar, fazer artesanato, aprender a usar ferramentas, consertar coisas, escrever, caminhar, fazer exercício físico, meditar, fingir que é uma rock star e usar o desodorante pra dar um show no quarto, passar creme facial e sentir seus poros se abrindo, tirar selfies, tirar nudes, tomar um bom banho, organizar coisas, arrumar o quarto, limpar a casa, fazer as unhas, cozinhar aquelas receitas loucas dos vídeos da internet, cozinhar um monte de comida e distribuir para moradores de rua, fazer trabalho voluntário… Enfim, há uma gama infinita de possibilidades.

Talvez todas ou a maioria das atividades listadas pareçam um saco pra você, mas o que todas elas têm em comum é que você — e só você — é sua própria companhia. Você gosta de estar consigo mesma? Esse é um prazer que se adquire na prática.

Talvez, nas primeiras vezes em que você ficar sozinha, você vá se sentir péssima, variando de entediada a deprimida. Mas o processo de autodescoberta e autoconhecimento não acontece de uma hora pra outra e muito menos vem do nada. De início, pode ser que o tempo sozinha leve uma eternidade para passar. No entanto, conforme vamos nos habituando, inevitavelmente vamos conhecendo nossos gostos e tendo mais vontade de repetir o que for funcionando.

É também importante aprender a reconhecer os momentos de felicidade. Aquele momento em que você chega do trabalho com os pés doloridos e senta no sofá descalça por dez minutos só pra relaxar? Isso é você sendo feliz sozinha. É por isso que, volto a dizer, ficar feliz sozinha não é um conceito filosófico. É o dia a dia, é a sua rotina. São momentos de prazer com sua agradável companhia. E, se sua própria companhia não está agradável, você pode trabalhar para torná-la.

Autoconhecimento não é só saber do que você gosta e ter o que fazer quando está sozinha. Há também o aspecto emocional para dar conta. Você sabe reconhecer quando está frustrada, animada, ansiosa, irritada, em paz…?

Para aprender a se sentir bem, outra coisa importante é desenvolver nossa inteligência emocional. Isso se faz também com prática. Primeiro, precisamos nos habituar a questionar como estamos nos sentindo e, ligado a isso, nos habituamos também a nomear nossos sentimentos.

O autoconhecimento que construímos com isso nos ajuda bastante quando estamos em busca de prazer com nossa própria companhia. Mais do que isso: muitas vezes, estamos bem solteiras, mas nos sentimos mal exatamente porque nos cobramos estar em um relacionamento. Faz sentido isso?

Também é importante cultivar relacionamentos que não só o amoroso, como já falamos no texto anterior. Mesmo que você não fique muito sozinha, quando está acompanhada, é sempre da mesma pessoa? Acredito que ficamos muito mais seguras em nós mesmas quando temos em nossa vida pessoas diferentes para conversar, sair, fazer atividades diversas. Além disso, cabe lembrar que relacionamento não é só isso. Você pode considerar também sua relação com o lugar onde mora, com as plantas, com o animal de estimação e até com a sua própria espiritualidade. Enxergar essas coisas também como relações ajuda a tirar o foco de uma suposta ideia de solidão nessas atividades.

Acho que o momento em que mais sentimos falta de ter alguém pra ser casal conosco é quando estamos tristes com alguma coisa ou doentes — isto é, quando estamos frágeis de alguma forma. Nesses casos, acho que o importante é lembrar que nada disso se resolve com namorado/a.

Às vezes, quando estamos frágeis, nos sentimos um pouco melhor tendo alguém do lado pra dar atenção e cuidar de nós, mas isso deve ser um conforto, algo desejável, não uma necessidade básica para conseguirmos ficar de pé. A busca por felicidade não pode estar fora de nós. A verdade é que, quando estamos frágeis e isso nos faz sentir abandonadas, nos sentimos dessa forma pois não estamos bem conosco.

Quando estamos bem, esses momentos de fragilidade são muito menos significativos: chateiam, mas não nos derrubam.

É mesmo difícil mudar esse estado mental que fomos praticamente programadas para ter e alimentar, mas não é impossível e nem é ilusório. Disseram-nos que o apego e a dependência emocional a um companheiro ou a uma companheira é um escape, um alicerce, um vínculo positivo que devemos manter porque somos frágeis. Mas essa é só mais uma das mentiras que nos contam.

Estamos bem sozinhas e, se olharmos com carinho e cuidado para nosso mundo interno, estaremos bem apesar de — apesar do término, apesar de brigas, apesar de rupturas, apesar de qualquer coisa que, na aparência, possa parecer dolorosa. Isto porque sabemos que não dependemos de ninguém para existir, para ser validada. Essa tomada de consciência é o que abre a porta que precisamos abrir para começar a desprogramar essas ideias. Comece no dia a dia. Perceba as pequenas coisas. Olhe para dentro e tente nutrir, um pouco por dia, esse mundo interno tão precioso. As práticas que dividimos aqui com vocês são uma boa possibilidade de, um passo por vez, colocar isso na sua rotina. 

A gente te espera no fórum para continuar esse papo. 


Laura Pires é escritora e pesquisadora especializada em amor e relacionamentos. 



 

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