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Do que falamos quando falamos de bifobia?

Polêmyka, né? Então vamos começar do começo?

Rola no meio LGBT uma discussão enorme acerca da existência da bifobia. Bom, se a gente vai falar de discriminação, precisamos antes definir o que é opressão estrutural. Existem teorias, filósofos e militantes diferentes que defendem a ideia de opressão de maneiras diferentes.

Eu, particularmente, de acordo com o que estudei e com a minha vertente, acredito que existem três tipos de opressão estrutural: de gênero, de classe e de cor.

As discriminações acerca de sexualidade e orientação sexual, se a gente for reparar com cuidado, são todas oriundas da opressão de gênero. E aqui entra a mulher: como dito de Beauvoir até Butler, a mulher faz parte de uma divisão de subpessoas. Um gênero secundário, o que transvia, o que difere, que é inferior, fraco, passivo e inerentemente ruim. Seria, portanto, predestinado a permanecer na esfera doméstica desempenhando tarefas tidas como subalternas, deixando a esfera social e política para o gênero primário, importante e ativo — o masculino.

A partir dessas premissas, um homem gay é tido como homem que não se comporta como homem. É visto como um macho que não sabe seu lugar de macho na sociedade. É recriminado por sua conduta degradante, porque qualquer comportamento dito ou similar ao feminino (no caso, se sentir atraído por homens) é, por natureza, desprezível. 

A mulher lésbica, por sua vez, também é vista como elemento que não reconhece seu lugar correto. À elas, é direcionado não apenas o fetichismo masculino de observar duas mulheres interagindo sexualmente, como também a necessidade de correção de seu comportamento, levado às consequências mais cruéis na forma de estupro corretivo.

As agressões sofridas por homossexuais, embora tenham um motivo comum, são absolutamente distintas em sua prática. Ambos são tidos como desvios do comportamento padrão, que podem e devem ser corrigidos (através de violência, rituais religiosos, etc).

O bissexual não existe nesse meio. A bissexualidade é todo um outro tipo de "perversão sexual". O bissexual não tem um comportamento que desvia da norma — ele destrói a norma. Não só a heteronorma, corrompida pelos homossexuais, como também a monossexualidade (característica que heteros e homossexuais compartilham, relativa a se atrair por somente um gênero). É visto como uma pessoa pervertida, devassa, promíscua e suja.

Assim, quando falamos de bifobia, não estamos necessariamente alegando que a discriminação de bissexuais vem de uma opressão estrutural. Estamos apenas descrevendo e nomeando comportamentos preconceituosos, que invisibilizam, agridem ou ofendem pessoas bissexuais.

Essa discriminação existe e gera vítimas, queira você chamá-la de bifobia, de preconceito contra bissexuais ou de Francis, o nome não importa. Suas consequências continuam lá.

Por causa dessas especificidades, é necessário analisar de forma contextual e lógica a maneira que estendemos nossos conceitos de homo/lesbofobia a pessoas que não são homossexuais. Quando se diz, por exemplo, que uma pessoa bissexual só sofre preconceito quando está num relacionamento com alguém do mesmo sexo, estamos ao mesmo tempo invisibilizando sua sexualidade e alegando, por consequência lógica, que um homossexual não sofre discriminação enquanto estiver solteiro (o que sabemos que não procede). Também estamos tratando o bissexual como uma pessoa que é meio-gay, que não sofre discriminação, mas apenas uma parcela do que é direcionado a pessoas homossexuais, o que também não é verdade. 

Também é uma manifestação de bifobia ficar criando réguas para verificar se a pessoa se atrai mesmo por dois gêneros. Não, ele não precisa ter se envolvido com a mesma quantidade de pessoas de gêneros diferentes. Não, um homem bissexual não precisa ter transado com várias mulheres para ter certeza de que não é hetero. Não, uma mulher bissexual não precisa ter tido uma maioria de parceiras para ser considerada bissexual (até porque, se ela tivesse obrigação de se relacionar majoritariamente ou totalmente com mulheres, seria lésbica). Pare pra pensar: se uma garota se sente atraída por outras garotas, mas só teve um parceiro durante a vida toda e se casou com ele, ela deixa de ser bissexual por causa disso?

Como o gênero influencia diretamente no cotidiano da pessoa não hetero, é cabível também mencionar alguns dados sobre mulheres bissexuais, especificamente:

Ou seja, apesar de sermos vistas como pessoas que não sofrem a "discriminação completa" que sofreria uma lésbica, por exemplo, o que as estatísticas mostram é que a nossa realidade é muito mais permeada por violência e instabilidade. Isso significa que ser mulher e bissexual te traz uma possibilidade muito maior de passar por uma série de vivências traumáticas, ao contrário do que se acredita (e na contramão de conceitos estapafúrdios como o de "passabilidade hetero").

Por isso, é importantíssimo quebrar essa ideia nociva de que bissexuais não sofrem discriminação, especialmente dentro da comunidade LGBT. É imprescindível acabar com os estereótipos ligados a bissexualidade: indecisão, promiscuidade, infidelidade, a ideia de que somos transmissores de DST's, de que somos sujos, etc. Vale lembrar que homossexuais já foram considerados os responsáveis pelo espalhamento do HIV, tal como hoje bissexuais são erroneamente apontados como vetores de DST's. Se não conseguimos aprender uma lição com a história, estamos fadados a repeti-la.

É especialmente doloroso observar algumas condutas extremamente tóxicas vindas de quem está, teoricamente, do mesmo lado que a gente. Fica difícil de compreender a falta de empatia, quando para um determinado setor da sociedade (que tem uma força social e política preocupante) nós todos representamos o que há de pior no ser humano, e seguimos nos segregando por puro preconceito.

Ainda está na dúvida e não sabe exatamente o que caracteriza bifobia? Não tem certeza de como agir com bissexuais? Segue muralzinho da vergonha e posts da campanha #FoiBifobiaQuando abaixo pra você ter uma ideia do que NÃO fazer:


Sexualidade: a trilha da mês

A trilha da Comum desse mês é sobre sexualidade feminina. Vamos explorar o tema juntas, através de textos, vídeos, conversas no fórum e práticas. O percurso começou em setembro e está disponível integralmente só pras assinantes. Se quiser saber como se tornar uma pra ter acesso às trilhas, ao fórum e os encontros fechados, clica aqui e vem com a gente. 

O encontro é aberto a todas as mulheres. Saiba mais aqui.


A assinatura mensal da Comum dá acesso a parte fechada, que inclui as trilhas, o fórum, encontros só pra comunidade (on e offline) e desconto em encontros abertos ao público. Você pode pagar R$40/mês ou financiar uma mina que não possa pagar, com R$80/mês. Saiba mais aqui.


Débora Nisenbaum é formada em publicidade, mas ainda não sabe o que fazer com isso. Atualmente é colaboradora na Ovelha

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