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Enxergar-se é o começo

Foto: David Marcu

Foto: David Marcu

Quando eu tinha 4 anos, reconheci pela primeira vez minha imagem. Estava sentada na cama da minha mãe e tinha perdido os primeiros dentes de leite. De repente, vi uma imagem no espelho em frente: então aquilo era como eu era?

Lembro de ficar um tempo bem longo observando. Então aquilo era eu. Aquele cabelo, a bochecha, o corpo rechonchudo, os olhos e o sorriso sem dentes. Aquele conjunto formava uma pessoa e mostrava a mim mesma algo que eu só entenderia a importância quando fosse adulta: enxergar-se é o começo.

O costume de encarar o espelho, como se através dele eu fosse descobrir quem eu era, permaneceu até a idade adulta. São longos minutos olhando fixamente pra uma imagem que deveria dizer quem eu sou. Eventualmente vejo alguém bonita, outras vezes vejo um rosto extremamente cansado, abatido e num formato que nem sempre consigo aceitar. Outras vezes, não vejo: tentar descobrir o que a pessoa do reflexo é só me causa mais uma série de questionamentos.

Um ponto que sempre tive muito forte na minha vida era descobrir quem eu sou. Em várias situações e por um longo período de tempo, eu nunca senti que poderia ser eu mesma. Esse conforto existia com tão poucas pessoas que, às vezes, nem me lembro. Eu não era só um rosto abatido, mas um monte de sentimentos pesados no meu ombro.

Desenvolvi sintomas muito mais fortes de ansiedade há alguns anos e foi só nesse período que entendi que analisar minha imagem era diferente de aceitar o desafio de me enxergar de verdade. Colocar em prática o exercício de enxergar-me era um caminho espinhoso, era aceitar tudo que eu tinha escondido num canto por aí e dar um jeito naquilo. Era mais do que desvendar o conjunto de características físicas que eu tinha, era organizar pedacinho por pedacinho de toda bagagem emocional que eu negligenciei.

Falamos muito de empoderamento e eu sou a primeira a levantar a bandeira do amor-próprio por saber que o menor passo dado em direção a esse caminho é o suficiente para nunca mais voltarmos a ser como antes. Nossa história nos ensinou que valorizar e olhar para nossas características físicas era o ponto mais importante e que nossas emoções não eram nada demais, sempre exageros ou bobagens.

Aceitar todo sentimento que a gente esconde, todas as palavras que a gente engole, dar um jeito nos medos, assumir os traumas e construir a autoestima que tanto clamamos para as amigas, irmãs e familiares é o melhor relacionamento que podemos ter. Não é tão fácil, da mesma forma que raramente é fácil lidar com qualquer questão que nos envolve, mas é libertador. É uma questão de escolha, ainda que seja pesada, dura, apavorante, é nossa escolha. É uma luta interna e que dura a nossa vida inteira. Mas é a nossa vida.

Um espelho pode fazer você encarar seu corpo, cicatrizes e expressões faciais, mas jamais irá revelar a verdade se você não permitir contá-las para si mesma. Empoderar-se é enxergar a si mesma, é se revelar - não necessariamente para o mundo, mas antes de tudo para si mesma. O começo da nossa jornada acontece quando saímos em busca de quem somos, e essa busca é que traz o poder que precisamos ter sobre nós, nossas escolhas e emoções. Enxergar-se é o começo da nossa luta.


Franciellen Carneiro, 22 anos, Jacareí. Feminista. Jornalista que quer viver de escrever e conquistar o mundo. Meu Palanque | Twitter  

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