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Bolsonaro é só a ponta do iceberg da Cultura do Estupro e do autoritarismo

Em tempos de população chocada com estupro coletivo, o deputado Jair Messias Bolsonaro virou réu do STF e vai responder pelos crimes de injúria e apologia ao estupro. A denúncia se refere a uma sessão da Câmara de 2014, quando Bolsonaro disse que só não estupraria a também deputada Maria do Rosário porque ela não merecia. Ok, ótima notícia, mas Bolsonaro é só a ponta do iceberg do machismo absolutamente estrutural da nossa cultura.

Muito longe de ser inofensivo, o discurso de Bolsonaro é explicitamente machista, racista, classista e LGBTfóbico. Bolsonaro se aproveita do incômodo causado pelos movimentos sociais em busca de direitos para extravasar ódio e o desejo de que o mundo volte a ser como era décadas atrás, sem espaço algum para minorias. O deputado condensa o ódio por grupos marginalizados e, por conta disso, move multidões, que veem nele a única saída possível para restaurar valores tradicionais que acham ter sido perdidos. Por isso, é tão importante que a principal Corte do país o acuse formalmente por disseminar o preconceito.

Mas os seguidores de Bolsonaro me preocupam muito mais. Me preocupam porque são milhões, já que o deputado aparece com 11% de intenções de voto para a presidência em 2018. Não acho que todos sejam verdadeiros fascistas como Bolsonaro, mas são pessoas incomodadas o suficiente com a cidadania alheia para focar sua adoração (e seu voto) em uma figura que não tem constrangimento nenhum de humilhar e oprimir diversas populações em público.

Muitos dos “bolsonaretes” são discretos em seu ódio e veneram aquele que fala por eles. Bolsonaro, de fato, os representa, pois se fossem tão preconceituosos em seus meios talvez fossem discriminados. Mas Bolsonaro não é: pelo contrário, é recompensado com uma popularidade e importância crescentes. A quantidade de seguidores do deputado mais conservador de nosso tempo (e olhem que a disputa é acirrada) mostra a falência de nossa sociedade em formar pessoas cidadãs, justas e solidárias.

Fosse um pequeno grupo, seria uma exceção, um ponto fora da curva. Mas a moral conquistada por Bolsonaro é um sintoma muito grave de que disseminamos preconceito em nosso cotidiano e que normalizamos a violência pelo menos até um determinado ponto. Suas declarações chocam pero no mucho. Nada parecia atingi-lo até a acusação do STF. O cuspe de Jean Wyllys em sua direção causou muito mais repercussão do que o comentário homofóbico que o originou e isso diz muito sobre nós, sobre quem escolhemos humilhar e sobre quem veneramos.

Tirar Bolsonaro é muito importante, não há como discordar disso. Mas é muito mais importante (e difícil) implodir a cultura que o sustenta e que permite que ele seja democraticamente eleito há anos. Sem destruir o sistema, Jair Bolsonaro vai ser substituído por outro (o filho Eduardo é um forte candidato) e nós continuaremos na mesma. Aqui na Comum temos vários textos sobre como podemos mudar nossas ações no cotidiano - 1, 23 e 4- e, para mim, é essa a chave da questão. Combater o monstro que se apresenta a nossa frente passa necessariamente por uma revolução de hábitos e nós já demoramos demais pra começá-la.

Até lá, pretendo assistir de camarote a queda do Messias.


Nana Soares é jornalista que vai escrever sobre desigualdades de gênero até elas deixarem de existir. Co-autora da campanha contra o abuso sexual do Metrô de São Paulo, escreve sobre feminismo e violência contra a mulher para o Estadão e faz parte do Pop Don’t Preach, um podcast sobre feminismo e cultura pop. 

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