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#14 Reconhecer o que já existe de bom em você e no mundo pode ser o primeiro passo para a transformação

"O princípio mais profundo da natureza humana é a ânsia  por ser apreciada" - W. James

“O problema que temos há bastante tempo é que não nos apreciamos completamente. Não apreciamos que somos capazes de ver, escutar e experienciar. Pensamos que se compramos algo caro, isso funcionará. Mas quando compramos algo de fato, nos cansamos rapidamente do que compramos e, em muitos casos, nos desapontamos. Podemos ter aprendido a adquirir tudo o que pensamos para experienciar ao máximo o mundo, mas ainda não experienciamos completa e totalmente as coisas.” - Chogyam Trungpa



O que acontece quando não sabemos quem somos?

Certa vez, pude participar de uma reunião de integração entre jovens que estavam em regime semiaberto por infração em um programa de estágio socioeducativo. Pedimos que eles se apresentassem através de uma imagem, e um deles se representou como um saco de lixo. Segundo ele, era o que havia em sua mente.

Nunca me esqueci dessa cena. Quando interrogados sobre as suas habilidades e qualidades, a maior parte desses jovens não consegue dar uma resposta e, quando conseguem, mencionam apenas uma ou duas. De modo geral, não se percebem enquanto pessoas fundamentais em um contexto mais amplo de transformação social.

Infelizmente, essa dificuldade se encontra na maioria das pessoas. Muitas vezes, não sabemos como aceitar e reconhecer as nossas potencialidades ou conquistas. Se alguém nos oferece esse reconhecimento, internamente questionamos isso ou, então, manifestamos algum comentário que o diminua, como "mas eu não fiz mais do que a minha obrigação" ou "nossa, essa roupa é tão velha!". Temos até um certo orgulho nesse comportamento, falsamente desprezando o reconhecimento alheio (quando, no fundo, estamos desesperadas por isso).

Confundimos humildade com autodepreciação.

Um aspecto curioso sobre isso é que costumamos nos avaliar negativamente em comparação a como somos avaliados pelas pessoas próximas (como no vídeo abaixo), o que revela aquilo que já sabemos, mas que vale a pena relembrar: qualquer aspecto da realidade tem sempre muitos ângulos ou formas de ser olhado. 

Portanto, a autoimagem negativa pode, muitas vezes, estar associada a uma dificuldade de foco: aprendemos a olhar o que falta, ao invés de reconhecer o que existe.

A importância do reconhecimento

A necessidade de reconhecimento é humana e universal. Algumas tribos costumam, quando algum integrante comete algum erro, formar uma roda ao redor da pessoa e dizer a ela todas as suas qualidades e ações positivas para que ela se recorde de seu papel importante no grupo. O reconhecimento das nossas habilidades e qualidades possibilita perceber de que modo podemos beneficiar as pessoas ao nosso redor. Não por acaso, um dos aspectos mais associados ao adoecimento mental no trabalho é a ausência de reconhecimento. Perdemos a confiança no nosso potencial de ação quando nos falta reconhecimento e valorização.

Condicionar o nosso comportamento a aspectos externos, no entanto, não é a melhor saída. Quando associamos o nosso valor a condições externas, como status, posição social, posses, aparência ou o que as pessoas nos dizem, somos muito mais frágeis e suscetíveis a perder a sensação de valor quando esses aspectos se alteram. A consequência disso acaba sendo a culpa, a vergonha, o isolamento, a estagnação e a escassez de criatividade. Além disso, se precisamos nos comparar com os outros para nos sentirmos bem, tenderemos a depreciar e a menosprezar as pessoas para que o sentimento de superioridade surja. Naturalmente, não conseguimos sustentar essa imagem idealizada por muito tempo, e sofremos picos de baixa e alta autoestima constantemente.

Aprender a reconhecer o que possuímos, interna e externamente, possibilita desenvolver maior confiança em desempenhar aquilo que queremos, além de fazer com que projetemos menos nas nossas relações essa necessidade de valor. Enquanto a autovalorização nos inspira a ser vulneráveis, a compartilhar sem medo e a perseverar,  a sua ausência nos mantém atrofiadas, tímidas e medrosas.

Temos dificuldade em fazer isso porque temos medo; medo de não atender altas expectativas, nossas e dos outros, se falharmos em algum momento.

Também temos medo de adquirir uma percepção enganosa de nós mesmas e pouco realista, pois achamos que olhar para os aspectos positivos implica excluir ou esquecer os aspectos nos quais precisamos melhorar. De fato, ninguém aprecia um narcisista - exceto o próprio narcisista.

Cultivar a autoapreciação implica perceber, antes de tudo, que as nossas qualidades não são só nossas. Se olharmos com mais cuidado para todas as nossas conquistas e habilidades, veremos que elas não surgiram espontaneamente; precisaram de uma série de circunstâncias favoráveis para surgirem, como o apoio e suporte de pessoas queridas, pessoas maravilhosas e especiais que nos inspiraram e ensinaram de algum modo e, até mesmo, as situações difíceis pelas quais eventualmente passamos.

Reconhecer o que possuímos de mais valioso nos ajuda a perceber o que há de valioso no mundo - e isso contribui para uma sensação de conexão e para o desenvolvimento de um dos comportamentos mais relacionados à felicidade: a gratidão.

Ouvi uma vez de um grande mestre, Lama Samten, que quando falamos o nosso curriculum, falamos como se tivéssemos feito tudo sozinhas. Nunca incluímos onde estavam os nossos pais, amigas, parceiras e todas as outras condições que possibilitaram a nossa caminhada.

Um outro aspecto muito importante da autovalorização é reconhecer o que possuímos de mais belo para oferecer ao mundo em benefício dos seres. Da mesma maneira como somos beneficiadas pelas qualidades de tantas pessoas incríveis, as nossas qualidades (que não são só nossas) também impactam direta e indiretamente a vida de muitas pessoas.

Como toda habilidade, essa é uma que se torna cada vez mais presente quanto mais a praticamos. Se tivermos dificuldade em apreciar algo em nossas vidas, podemos observar quais qualidades positivas observamos nas outras pessoas. De algum modo, isso está presente em nós, pois é preciso haver uma representação interna antes de identificarmos algo externamente. Reconhecemos fora o que já existe dentro.

Celebrar as conquistas e qualidades dos outros também é um hábito a ser cultivado. Teremos muito mais motivos para nos alegrar. Quando compartilhamos nossas conquistas com as outras pessoas, também oferecemos a oportunidade de expandir a alegria.

Exercitar o olhar para ver as potencialidades ajuda a dar um nascimento positivo a todas ao nosso redor. Quando focamos no que falta, seja em nossa vida ou nas outras pessoas, agimos de modo defensivo e exigente. Quando observamos as qualidades positivas de uma pessoa, nos abrimos a ela e confiamos na sua capacidade de oferecer o melhor. Naturalmente, ao oferecermos esse presente, a outra pessoa também se comporta de modo a reforçar o nosso olhar. Nunca houve separação entre o que olhamos e o que se apresenta. Estamos todas conectadas.

Para encerrar essa reflexão, segue um poema da Marianne Williamson:

Nosso medo

Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é que somos poderosos além de qualquer medida.

É a nossa luz, não as nossas trevas, o que mais nos apavora. Nós nos perguntamos: Quem sou eu para ser Brilhante, Maravilhoso, Talentoso e Fabuloso?

Na realidade, quem é você para não ser? Você é filho do Universo. Se fazer pequeno não ajuda o mundo. Não há iluminação em se encolher, para que os outros não se sintam inseguros quando estão perto de você.

Nascemos para manifestar a glória do Universo que está dentro de nós. Não está apenas em um de nós: está em todos nós. E conforme deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.

E conforme nos libertamos do nosso medo, nossa presença, automaticamente, libera os outros.


Autocompaixão para mulheres: a primeira trilha da Comum

Desde quando o fórum nasceu, ano passado, notamos que a cura pras nossas questões começava dentro de nós. Ou passava necessariamente por isso: entendermos nossas emoções, necessidades e sermos mais gentis conosco. Resolvemos então nos aproximar do tema da autocompaixão e conhecemos a Carol Bertolino, que estuda o assunto há algum tempo. 

A trilha da Comum desse mês é sobre autocompaixão e autonomia afetiva pra mulheres. Vamos explorar o tema juntas, através de textos, vídeos, conversas no fórum e práticas. A trilha começou no dia 10 de julho e segue até o encontro. Você pode ver todo o conteúdo dela aqui.


Imersão: autocompaixão em São Paulo

Uma imersão de dois dias (27 e 28 de agosto), em São Paulo, guiada pela Carol Bertolino e só pra mulheres. Aberta pra assinantes e não assinantes. Saiba mais e se inscreva aqui. 


Caroline Bertolino é psicóloga, formada pelo programa Mindful Self-Compassion, da própria Kris Neff, e pelo programa Cultivating Emotional Balance, com a Eve Ekman e o Alan Wallace. 

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