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#2 Herança ancestral: estamos nutrindo os saberes populares quando comemos?

quem de nós?

você, eu, nossas irmãs?

as que passam pelas ruas entre a sede de liberdade

e o amargor das violências cotidianas...

ou as que conseguem temperar de fé sua atuação em cada uma das histórias não contadas, dos lugares por nós não ocupados?

pergunto:

em tempos de escutar, de fixar em artes nossas verdades

tão singulares e plurais quanto nenhum vocabulário consegue alcançar,

de dançar e amar apesar das tantas revisões de um chão que se

rompe-despedaça-move e resiste em dar frutos...

quem de nós está cuidando das sementes e das receitas de nossas avós?

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Faço eco ao texto da cineasta jovem negra Yasmin Thayná: “temos a responsabilidade de manter nossas plantas vivas”. Que ressoe a reflexão de que também somos tempo, ancestralidade, natureza, observação, cuidado, mandinga, sabor, corpo com fome e doenças, mãos com frio de um chá quente, braços que precisam de frescor após tanta luta ou conversas secretas no picar Caruru.

Fórmulas para desempenho físico e produtos com nomes sofisticados para dizer sustentabilidade são apresentados semanalmente como soluções desenhadas em uma época em que tanto se sabe sobre tudo: a vitamina que faltava, a nova manteiga, o sal que veio de longe.

Que as novidades continuem nos brindando com as revisões de padrões e modelos e com a resiliência pela liberdade de trajetos: mas que entre as quebras e trânsitos, lembremo-nos de manter conosco também o que está dentro e o que é fértil e está perto.

Sabedoria essa que é espontânea, bruta, viva, dita popular. Conhecimentos em saber olhar natureza e comida, sobre modos de fazer, jeitos de manter e de sustentar que são também repertório válido para criatividade propositiva, para transformação positiva de mundo: ao ignorarmos tais possibilidades estaremos também desperdiçando material vivo, muitas vezes humanos, para nós mesmo. Repertório esse que se encontra é nos fundos de gavetas, nas histórias orais não escritas, nos objetos do cotidiano e em muito do que nos ensinaram a ignorar.

Plantas com suas raízes e sementes — alimento e cura — foram cuidadas por gerações de gente como nós que mantinha viva a certeza de que a potência para seguir muitas vezes mora em uma horta, um quintal, um jardim: ou no caderno de receitas de quem amarrava os cabelos em um pano que protegia os fios de histórias e a alma feminina.

Algumas de nós nutrimos com cuidado esses caminhos abertos. Pesquisadoras como a Marajoara Tainá, que faz de seu de Ponto de Cultura Iacitatá, em Belém do Pará, um espaço de reviver as parteiras, farinheiras, rezadeiras, guerreiras que somos: Amazônia viva em seus pratos, textos, palestras e conferências. Tantas velhas de Nortes salvaguardadas por uma jovem que escolheu replantar as suas sementes.

Articuladora cultural e criativa reconhecida por seu trabalho em moda e curadoria em afrodescendência, Juliana Luna lançou em junho deste ano o evento A Comida e o Feminino como parte da programação da primeira edição da Virada Sustentável no Rio de Janeiro. O assunto é uma das frentes de trabalho de seu mais novo projeto, Yemisi, que pretende nos reconectar com o que há de mais sagrado em nós.

Muito também revivemos sobre as culturas que podemos nutrir ao conversar com mulheres simples — e portanto sábias — como erveiras, benzedeiras, cozinheiras. Mestras de cultura como Nega Duda e Graça Reis: a primeira, sambadeira de roda do Recôncavo baiano que chegou em São Paulo como empregada doméstica, a segunda é festeira do Maranhão, quem coloca o Boi Bumbá pra brincar também nas ruas da maior cidade do país. Em comum entre as duas está o saber alimentar a fé no corpo de comunidades inteiras, as reuniões em volta do fogo, a amizade que cuida do vigor de seus queridos.

Amizade, sim. Porque amiga é também “caldo preparado com o do feijão, engrossado com farinha sessada, convenientemente temperado, e com pimenta”: isso conta o Dicionário do Folclore Brasileiro por Luís da Câmara Cascudo. Uma palavra, como tantas, que nos dá pistas sobre nossa visão originária de mundo.

E, sim, podemos seguir escolhendo se queremos nos aventurar nos fogões e microondas, lugar de mulher é mesmo onde ela quiser.

Mas que a gente não se esqueça, no ímpeto de deixar pra trás o que não nos vale mais: é importante se alimentar — sem deixar de nutrir nossos tão inteligentes e eficientes saberes populares.

Pode ser do pé da fruta do quintal de uma família no interior. Da erva que tira as energias pesadas daquelas que cuidamos. Das histórias de mulheres que vieram antes e nos permitiram estar aqui... De cuidado, de esmero, de bem-querer. Que saibamos alentar não só corpo como alma e que alimentando a alma olhemos para trás — para nossas mães, avós, bisavós — como forma de resgatar a sabedoria da ancestralidade.


Prática sugerida:

Sugerimos aqui uma reflexão, pra começarmos essa exploração mais profunda da nossa relação com a comida. Pare 5 minutos e pense na sua alimentação hoje. Pratos, preferências, ingredientes, costumes, práticas e processos. O que da sua família, do seu povo, da sua região, da sua avó, da sua mãe, de mulheres que vieram antes de você, você traz até hoje? Pode ser qualquer coisa. Uma dica, uma lembrança, um sabor, um jeito de fazer. Faça esse mapeamento. Qualquer coisa, por menor que pareça, é válida.

Se não lembrar de nada, ou lembrar de pouco, tente fazer esse resgate. Converse com mulheres e pessoas que são suas referências na cozinha, referências de saberes antigos. Pode ser uma mulher da família ou alguém próximo. Recorde com essa pessoa uma receita, aprenda algo pra levar com você. Anote e bote em prática assim que puder.

Também, não se esqueça de nutrir, daqui por diante, esse novo olhar: comida, cozinhar, é também trazer consigo uma sabedoria maior. É recontar histórias e relembrar narrativas. É ter lastro, é reafirmar uma identidade.


Mayra Fonseca é pesquisadora cultural com mestrado em antropologia e etnografia da alimentação. Fundadora e principal responsável pelo projeto Brasis, há treze anos trabalha com projetos de pesquisa, curadoria, consultoria e conteúdo sobre culturas e linguagens em diversidade.

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