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#3 Não mexe comigo, que eu não como só

Companheiro, do latim cumpanis, quer dizer “com pães”. A expressão vem lá dos antepassados, de  pequenos grupos familiares limitados a pai, filhos e irmãos que dividiam o pão e, ao que tudo indica, deram origem ao termo que, hoje, utilizamos para chamar aqueles por quem nutrimos um vínculo afetuoso.

As metáforas alimentarem invadem todos os aspectos da vida. Nossa história — como sociedade e como indivíduo — sempre bailou colado à alimentação. Foi no momento em que nossa ancestralidade sentou-se ao redor do fogo e compartilhou o primeiro alimento que nossas relações ganharam raízes. Ali, começavam a esquentar também os afetos. Do cru ao cozido, o fogo e o nascimento da cozinha nos içaram da condição biológica para a social, segundo Lévi-Strauss. Do calor das trocas ali firmadas nascia também a intimidade.

O latim nos emprestou outro verbete — o “mensa”, que significa conviver à mesa — para chamarmos o ato de comer junto de comensar. E é a comensalidade um dos fatores estruturantes da organização social. Para além do padrão alimentar ou do que se come, o como se come passou a ter peso e medida: através dessa lupa vemos o cotidiano, o dia a dia no seu modo mais íntimo se revelar.

É na comida compartilhada que se manifesta nossa sociabilidade. É quando nos reunimos em torno da comida que o ritual se mostra: quem come primeiro, o que come, como nos comportamos.

O prato nunca vem sozinho. Como acompanhamento temos histórias, tradições, tecnologias, procedimentos e ingrediente misturados com religião, sistemas socioeconômicos, culturais. Símbolos e ritos que dizem muito mais sobre a gente do que supomos.

Há uma dimensão social maior do que a biológica em comer junto.

Quando Chico Buarque canta em sua Feijoada “Mulher, não vá se afobar; não tem que pôr a mesa, nem dá lugar. Ponha os pratos no chão e o chão tá posto e prepare as lingüiças pro tiragosto. Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão e vamos botar água no feijão”  é a comensalidade que ele está entoando. É esquecer do “farinha pouca meu pirão primeiro” e deixar o “onde come um, come dois” falar mais alto.

E que não esqueçamos: o comensar está historicamente pautado no preparo das refeições pelas mãos femininas. É afeto, cuidado, zelo e dedicação, mas também pitada de patriarcado. Não significa que tenhamos de deixar as panelas — se delas gostamos —, mas é um viés que pede um olhar mais acurado: como chamamos também e cada vez mais o homem para o preparo?

Porque comer requer envolvimento de todo mundo. Para Fabiolla Duarte - fundadora do Colher de Pau e uma das especialistas envolvidas nessa trilha aqui - quando nos reunimos para comer estamos compartilhando da mesma sensação: "É muito íntimo comer junto. Quando estamos comensando, estamos intimizando, vinculando-se, conectando-se em um nível muito amoroso”.

Que a gente tome nota: mesa é hospitalidade. É remédio para curar dor de amor, é tratado de paz, é celebração e lugar de conversa séria. Ao redor da mesa agrupamos ideias e histórias com o poder transformador de educar, emocionar, fazer pensar. Comer com o outro é, em certa medida, deixar-se aberto ao mundo dele.

Comer também é herança, patrimônio passado de geração para geração. O almoço de domingo inadiável na casa da avó, o prato típico feito por aquele familiar, o cafézinho passado depois da feijoada: hábitos alimentares que representam a tradição viva. Comida na mesa é também identidade como grupo: o churrasco em dias de jogo do time que gostamos, o jantar semanal com amigos, abrir a casa e a sala de jantar para receber gente querida. Se o dito popular fosse revisitado, na certa seria "diga-me com quem comes que eu te direi quem és".

Que no próximo convite para dividir a mesa ou o prato tenhamos um olhar afetuoso e cuidadoso para o ato: estamos alimentando o corpo, mas também nutrindo nossas relações mais íntimas.

Fomos da roda em volta do fogo à mesa e levamos para as refeições essa nossa porção social. Mas nem só à mesa se trançam as trocas íntimas. A cozinha é nosso primeiro laboratório. É onde, entre mexidas de panelas, entre provas de temperos, entre espiadas rápidas nas receitas antigas ou na experiência nova compartilhamos casos, afagos, afetos e vivências. Já dizia a poetisa portuguesa Ana Luisa Amaral que “debaixo do fogão só o silêncio frio”.

 

E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:

a prosódia da mão, a ervilha dançando

em redondilha.

Misturar ritmos em teia apertada: um vira

bem marcado pelo jazz, pas

de deux: eu, ervilha e mais ninguém

De vez em quando o salto: disco sound

o vazio pós-moderno e sem sentido

Ah! hedónica ervilha tão sozinha

debaixo do fogão!

As irmãs recuperadas ainda em anos 20

o prazer da partilha: cebola, azeite

blues desconcertantes, metamorfose em

refogados rítmicos

(Debaixo do fogão só o silêncio frio)

 

Que a gente coma e fale, que partilhe a comida e a vivência. A conexão humana será nosso ponto de partida para esse processo investigativo e afetuoso que faremos, juntas, pela trilha. 

 

Prática sugerida: comensar anda sendo sinônimo do quê para mim?

Pensando que comensar é conectar, é partilhar e abrir canal, sugerimos um olhar para como e se estamos fazendo isso no nosso dia a dia. Então, pare alguns minutos, relaxe e pense nos pontos seguintes - sem pressa e com carinho.

Olhe, primeiro, para os convites que você faz e aceita para comensar: você está no automático ou consciente de que ao comer com o outro nutre também vínculos? Pensando nisso, com quem você compartilha a mesa? Come sozinha? Quem são as pessoas com as quais permite essa conexão? São benéficas? Despertam traumas? As refeições andam sendo momentos de tranquilidade, de discussões, de reflexões? De networking e trabalho? Do quê?

Depois, coloque sua lupa sobre o que você está nutrindo, internamente, ao comensar: você sente culpa? Vergonha de comer na frente do outro? Segura algum sentimento e não o deixa fluir? Fica tensa ou relaxada? Come mais ou menos? Revisita alguma situação do passado?

Por fim, depois dessa mirada profunda sobre como anda sendo, hoje, o comensar para você, pense em como gostaria que fosse. Coisas simples, que resgatariam essa perspectiva de partilha e conexão ao comer. Quem sabe mais tempo para as refeições, dividi-las com pessoas queridas mais vezes, comer em casa, e por aí vai.

Não com o intuito de ter de mudar, necessariamente, sua dinâmica. Mas para, quem sabe, retomar a importância de comer junto e ressiginificar um ato tão importante que, às vezes, acaba perdido no turbilhão da vida. Nos vemos no fórum para conversarmos mais. 


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Nessa trilha, é editora-chefe, participante e caseira. 

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