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#6 Para nós, mulheres, comida nunca é só comida

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Nossa relação com a comida é bastante única e particular.

Cada uma de nós teve uma história, uma família, nasceu em um contexto específico, foi criada em um lugar, tem uma cor, classe social, orientação sexual, arranjos familiares e daí em diante.

Mas temos um tanto compartilhado. Somos todas mulheres.

Nosso gênero — entre milhares de outras coisas — também influência a nossa relação com a comida. Comida, para nós, mulheres, dificilmente é só comida. Ela traz consigo outros valores, emoções, pesos e medidas que estão impregnados não só em nós, individualmente, mas em nós como coletivo. 

Existem sentimentos e opressões que compartilhamos em larga escala quando o assunto é esse. Mas nunca nos contaram isso. Passamos então uma vida solitária, achando que as nossas questões com a comida são só nossas. Não são. Existe toda uma cultura que planta, cultiva, reafirma e sustenta nossos problemas com ela.

1. Somos educadas para a culpa

Se olharmos bem de perto, com atenção para o nosso mundo interno, vamos conseguir pinçar a culpa com frequência. Ela está lá, seja na nossa relação com os pais, com os nossos filhos, com amigos, companheiros e companheiras, no trabalho, nas tarefas de casa. É comum, entre nós, brotar, antes de qualquer outro sentimento, uma sensação de que não fizemos o suficiente, fizemos errado, pisamos na bola. Essa culpa não é só nossa. Ela vêm acompanhando as mulheres há bastante tempo.

A culpa é um sentimento feminino tipicamente cristão, que nasceu com Eva,  a "grande culpada" pelo fim do paraíso e pela condenação de toda a humanidade. A lógica da culpa foi perpetuada na educação de mulheres — de formas óbvias ou mais sutis — durante séculos, e reforçada pelas culturas familiares patriarcais.

No Brasil, por exemplo — no início da história da educação de mulheres até meados dos anos 70 — várias escolas destinadas ao sexo feminino adotaram uma cultura escolar católica de tradição francesa, pautada em um conjunto de regras e regulamentos disciplinares inspirados nas formas de socialização das Demoiselles francesas no século XVIII — vistas como mulheres distintas, educadas, finas. Os valores transmitidos por essas escolas eram calcados na noção de pecado, culpa e punição.

Uma das práticas morais centrais nesses colégios de mulheres era o chamado exame de consciência, através do qual os professores instruíam as alunas à "examinar suas consciências ao cair da noite, evitar os hábitos culpáveis, detestar os vícios e cultivar as virtudes dignas de um cristão”. Detalhe: a mesma prática não acontecia nos internatos masculinos (só quando os alunos se destinavam ao clero).

"Essa velha culpa que me acompanha desde o colégio, que me faz sentir culpada por tudo, que me provoca uma angústia à qual nenhum analista consegue dar jeito, conduzindo-me ou à roda-viva ou à depressão profunda”.
Maria Lucia Dahl

Esse pedaço de história é só um exemplo. Conseguimos encontrar vários outros meios, além da educação formal, pelos quais o sentimento de culpa se perpetuou entre as mulheres. Hoje, ainda que ela não esteja de fato presente, ela já mora no nosso inconsciente coletivo.

"A culpa faz parte do inconsciente coletivo feminino. O sentimento de responsabilidade da mulher com a família é uma coisa espantosa e brutal."
Lya Luft

Não é diferente na nossa relação com a comida, principalmente dentro do binômio comida-corpo.

Comemos e sentimos culpa, arrependimento, angústia, raiva e frustração — com/por nós mesmas. Colocamos, nas nossas próprias costas, junto daquele chocolate depois do jantar, todo o peso da insatisfação com nossos próprios corpos, toda a tristeza que sentimos quando subimos na balança, todas as questões com a nossa própria vida.

Concentramos em nós mesmas o erro de uma cultura inteira, que diz que devemos pesar pouco e lutar, custe o que custar, por uma aparência que não é a nossa.

Passamos a vida inteira tentando não errar ou consertar o erro de comer, num ciclo sem fim de dietas, reeducações alimentares, novos tipos de treinos físicos, sofrimentos e repressões, permeados pela culpa da sobremesa aqui e acolá.

Mas a culpa não é nossa.

2. Autocrítica como fonte de crescimento pessoal

Uma autocrítica dura e afiada é outro combustível que mantém esse motor funcionando, lado a lado da culpa.

Ela vem a todo momento, para nos dizer o quanto estamos erradas, como poderíamos ser ou parecer melhor, o que deveríamos fazer para tentar ainda mais,  já que não estamos dando o suficiente.

 

"A gente acha que, se a gente não se critica, a gente vai paralizar. Então, a gente vive numa cultura que nos ensina que a crítica ainda é o grande motor de mudança. Que a gente precisa ser rígida com a gente, que a gente precisa se cobrar. E por trás disso tem aquela mensagem de que nós nunca somos o suficiente. Então, ela está sempre relacionada também a essa noção do que falta."
Caroline Bertolino

Está na cultura ocidental inteira. Crítica é a palavra de ordem. Existe também um olhar apurado para os referenciais externos, ao invés de um olhar vivo para as necessidades internas. Estamos sempre em comparação com algo fora de nós.

Nas mulheres, a autocrítica, associada à culpa histórica, é um coquetel molotov. Uma serve muito bem a outra, numa dança infinita, num ciclo interno difícil de romper.

Também a dureza da autocrítica não acaba em nós mesmas. Usamos a mesma medida de julgamento para olhar para o mundo e lidar com as outras mulheres. É aí que o círculo se retroalimenta externamente. Julgamos o que comemos, mas também julgamos a comida dos outros. Monitoramos o nosso peso, e também monitoramos os corpos alheios. E somos julgadas e monitoradas, numa roda apertada.

3. Um mundo de padrões estéticos

Pilates para secar o abdômen. Corrida para turbinar a bunda. Uma dieta low-carb que promete eliminar os quilos a mais. Gel redutor anti-celulite. Detox para o verão. Inibidores de apetite. Cremes anti-estrias. Balas de colágeno. Cinta redutora de medidas. Injeções de carbono para queimar gordura localizada.

A culpa e a autocrítica não se mantém sozinhas, principalmente quando o assunto é comida.

Somos avisadas por revistas, comerciais, novelas, Instagrams e vídeos no YouTube, constantemente, do quanto somos gordas e feias — e de que existem muitas possibilidades no mercado para solucionar, com rapidez e eficiência, os nossos  “problemas”.

Somos ensinadas, desde pequenas, que um dos nossos maiores atributos é a beleza. De outro, aprendemos com a mídia que existe uma beleza certa, um padrão a ser alcançado. Vivemos então perseguindo o inalcançável para a grande maioria de nós: uma aparência que não é nossa e nunca vai ser.

O ciclo está então fechado. Autocrítica, culpa, e padrões impossíveis de serem alcançados saudavelmente.

E agora?

Temos o mesmo gênero e tivemos a mesma cultura como berço.

Um bocado já se transforma na gente quando expandimos o olhar e alcançamos essa humanidade compartilhada. É um aconchego, um amparo, ver que todas as mulheres se conectam, em maior ou menor medida, de diferentes jeitos, nesses mesmos lugares de dor e dificuldade.

Não precisamos transformar nada. O importante, agora, é começar a aguçar esse sentimento de compaixão conosco e com outras quando o assunto for comida. Flagrar a culpa quando ela brota, a autocrítica quando ela vem forte e atropela.

Nada precisa ser feito a partir disso. Observe. Acolha-se. Acolha as mulheres ao lado na autocrítica, julgamento e culpa delas, em meio a dietas, tentativas de perder peso, ansiedades e compulsões.

Note o quanto temos em comum nisso, por mais diferente que a gente seja.

Estamos juntas.


Anna Haddad é fundadora da Comum. Escreve pra vários veículos sobre educação, colaboração, novos negócios e gênero, e dá consultorias ligadas à comunidades digitais e conteúdo direcionado pra mulheres.

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