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#11 Responsabilidade afetiva x autonomia afetiva: por que vale mais olhar para dentro?

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Você está saindo há tempos com a pessoa, nada sério oficial, mas com certa frequência, quando de repente ela aparece namorando alguém — e você fica sabendo pelo Facebook. A pessoa diz que ué, vocês nunca combinaram exclusividade, e age como se não houvesse motivo algum pra você se chatear. Você fica semanas num flerte com a pessoa e, quando finalmente rola, a pessoa desaparece, age como se nem te conhecesse. Reconhece essas situações? O mínimo de consideração e honestidade que falta em casos assim é que hoje em dia tem sido chamado de "responsabilidade afetiva".

O termo responsabilidade afetiva surgiu para abordar a questão do respeito, comunicação e lealdade em relações não-monogâmicas. Recentemente, o termo foi apropriado para as relações monogâmicas e vem sendo ressignificado nesse contexto. Em tempos em que as pessoas tendem a tratar uma à outra de forma utilitária, têm medo de se envolver e o afeto parece reservado apenas para relacionamentos muito sérios, é normal que se sinta falta de alguns elementos em relações, mesmo casuais.

Faz sentido que esse vocábulo esteja sendo ressignificado para abarcar atitudes básicas de cuidado e consideração com o outro, pois elas são cada vez mais raras ou até evitadas. No entanto, vejo também outra tentativa de ressignificação de responsabilidade afetiva que me parece perigosa: transformar o outro no foco de tudo que sentimos.

Com a popularização dessa ideia de responsabilidade afetiva, começaram a surgir muitas manifestações de cobrança por responsabilidade afetiva, dando a entender, na verdade, que as pessoas com quem nos relacionamos são responsáveis pelos nossos sentimentos e devem atender a todos os nossos caprichos, carências e expectativas. Não concordo com essa versão do termo, nem acho que ela seja produtiva.

Não acredito que nos ajude tirar de nós mesmas a responsabilidade. Ah, então somos culpadas por tudo que sofremos? Não integralmente, pois ninguém vive em um vácuo social, mas relações são dinâmicas cossustentadas e acho que vale muito mais entendermos nosso próprio papel nelas do que ficar buscando por um reconhecimento de culpa no outro. Afinal, nosso próprio lado é o único fator da equação que temos condições de aprender a gerenciar.

Em vez de nos dedicarmos tanto a cobrar responsabilidade afetiva dos outros, por que não olhamos mais pra dentro e tentamos desenvolver nossa autonomia afetiva?

O primeiro passo para esses fins é entender que nossos sentimentos nunca são causados pelas ações dos outros. Essas ações podem ser estímulo, mas não causa. E isso varia de pessoa pra pessoa. Por exemplo, você marca algo com alguém e a pessoa se atrasa.

Você pode: 1) se sentir desrespeitada, pois tem necessidade de que acordos sejam cumpridos nos mínimos detalhes; 2) se sentir frustrada, pois queria estar com a pessoa e o atraso significa menos tempo com ela; 3) se sentir grata, pois gosta de ter tempo sozinha e aproveita essa oportunidade para tal; 4) se sentir indiferente, pois atrasos e esperas não são uma questão relevante pra você. Veja bem, a mesma ação (se atrasar) é capaz de provocar diversos sentimentos, dependendo de quem você é e do que é mais importante pra você. As ações dos outros normalmente funcionam como gatilho para algo que já existe em nós.

A escolha de nos responsabilizarmos pelos nossos próprios sentimentos não é uma forma de isentar o outro de tudo que faz, mas sim de tentarmos nos entender e nos aparelharmos para lidar com o que sentimos e, a partir disso, tomarmos decisões. Quando alguém faz algo que nos desperta angústia, por exemplo, tentar mudar a pessoa costuma nos deixar ainda mais angustiadas.

Se ao contrário disso, aceitarmos que atitude X nos causa angústia, temos a opção de tentar mudar aquilo em nós que é engatilhado por X ou nos afastarmos dessa pessoa. A decisão de estar ali, aturando X, é inteiramente nossa. Se sabemos que aquilo não vai mudar e não saímos da situação, somos também responsáveis pela angústia que  sentimos. São escolhas que fazemos.

Não é necessariamente fácil passar a entender as coisas dessa forma e agir de acordo com ela. Em relacionamentos abusivos especialmente, ficamos imersas em algo que parece inescapável e impossível de mudar. Para sairmos de relacionamentos assim ou nem chegarmos a entrar neles, precisamos nos fortalecer emocionalmente. E isso só se dá a partir do reconhecimento de nossos sentimentos e aceitação de nossa responsabilidade por eles.

Essa percepção, é claro, não isenta o outro de sua parcela de culpa ou responsabilidade no contexto. O abusador não deixa de ser abusador só porque entendemos nosso papel ali e, indo mais além, se uma pessoa sabe que nos magoa com alguma atitude e ainda assim continua fazendo aquilo, é claro que ela não está sendo legal conosco. De qualquer forma, é mais produtivo trabalharmos nosso próprio poder de decisão e escolha quando nos deparamos com essas situações. Jogarmos tudo pra conta do outro não nos empodera, nem ajuda a construir nossa autonomia.

Quando nos dispomos a investigar dentro de nós o que nos faz sentir o que sentimos, entrar no tipo de relacionamentos em que entramos, escolher os padrões e dinâmicas que escolhemos, nos educamos e preparamos para fazer escolhas melhores.

É esse autoconhecimento que nos possibilita não cair em furadas ou nas mesmas armadilhas de sempre. Enquanto nosso foco maior for procurar culpados que nos fizeram de vítimas, não teremos controle sobre nós mesmas.

Os caminhos e as soluções não são externos. Só nós podemos nos ajudar e impedir a nós mesmas de entrarmos em situações que nos fazem mal. Que tal começarmos?

Nossa sugestão de prática

Não é fácil virarmos a chave e começarmos a entender o que se passa dentro de nós e nos responsabilizar pelo que está ali. Também, responsabilidade não significa julgamento, apontamento, autocrítica: tem a ver com tomar pra si o que é seu, ao invés de jogar tudo para fora, para o mundo, a situação e as outras pessoas.

Essa prática é simples e sugere uma mudança sutil de olhar, que podemos praticar sempre que pudermos, a fim de ir fortalecendo o percurso de autonomia afetiva. Vamos lá?

Como de costume, pense no tempo dessa prática não como uma obrigação, um afazer. Mas como um espaço de autocuidado, carinho consigo mesma. Faça ser leve e divertido, se puder. Tire 10 minutos e vá para um lugar onde consiga relaxar. Se não for possível, tudo bem. Encontre uma brecha onde quer que esteja.

Respire fundo, se conecte com esse lugar de amor próprio e acolhimento. Pegue papel e caneta, apenas.

Tente se lembrar de uma única situação recente com seu parceiro, parceira, com alguém que você esteja se relacionando ou se relacionou afetivamente. Pode ser presente, recente ou no passado. Escolha uma situação que provocou fortes sensações em você — sejam elas boas ou ruins.

Escreva no papel como você vê a situação primeiro. Como você descreveria para uma amiga. Aqui, pode deixar vir o olhar habitual, que geralmente vem com uma carga de culpa e julgamento do contexto externo. Exemplo:

Ele mentiu que ia sair com os amigos. Era a terceira vez que ele fazia aquilo, mesmo depois de eu ter pedido para que ele não fizesse mais. Não foi nada legal da parte dele, e um tanto imaturo também. Eu esperava bem mais de um cara com 37 anos na cara.

Agora é a vez de treinar um olhar de mundo interno. Como você se sentiu naquele momento? O que brotou dentro de você? Se conecte com aquelas emoções daquela situação e escreva. Pode carregar de adjetivos e sentimentos. Use sempre a primeira pessoa. Assim:

Eu estava apreensiva de que aquilo se repetisse, porque me senti muito magoada e traída das vezes anteriores. Senti uma falta de segurança na relação e uma falta de cuidado.

A terceira perspectiva é exercitar um olhar empático. Tente se lembrar de como a outra pessoa envolvida pareceu se sentir na mesma situação. Descreva da mesma forma anterior, priorizando a carga emocional. Assim:

Parece que ele se sentiu com medo, acuado. Tive a impressão de que tudo o que ele queria era evitar conflito, que estava cansado e desconectado.

Por último, respire. Tente se afastar um pouco do mar emocional daquele momento e vamos treinar um olhar objetivo. Descreva a situação em si, o fato. Extraia todo e qualquer adjetivo, pessoalidade, impressão:

Ele me disse que iria sair com os amigos naquela quinta-feira, mas foi encontrar com a ex-namorada em um restaurante.

Respire fundo e finalize mentalmente a prática.

É isso. A ideia é treinarmos outros olhares possíveis, além do habitual. Entendermos que é possível um descolamento das emoções que normalmente nos arrastam para que possamos ver as coisas menos nubladas, com mais clareza. Isso não significa que não podemos sentir o que sentimos, ou que o outro está certo ou errado. O ponto não é esse. É enxergarmos essa coisa bonita que olhar para dentro nos deixa ver: temos escolhas. 


Laura Pires é escritora e pesquisadora especializada em amor e relacionamentos. 

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