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#4 [relato] A morte convida para um café

Podemos dizer que todos nós já perdemos algo e morremos um pouco, de um jeito ou de outro. Seja por meio de pequenas situações do cotidiano, seja através de grandes acontecimentos — como uma cirurgia mais delicada, um término de relação, uma demissão inesperada do emprego dos sonhos ou, ainda, pelo esforço em saber qual a nossa missão neste mundo  — : nos reinventamos e aprendemos a cada dia, deixando morrer antigas idéias e pensamentos para dar lugar a uma nova visão.

 Olhar de  Beatriz Xavier  em foto criada exclusivamente para este texto

Olhar de Beatriz Xavier em foto criada exclusivamente para este texto

 

O fato é que a morte faz parte da vida mesmo, e vice e versa. Estamos envelhecendo a cada minuto e cada minuto vivido é um minuto mais perto da morte. E pode soar pessimista, mas no instante em que nos recusamos a enxergar esse fato estamos nos recusando a reconhecer a preciosidade do presente e também o sofrimento que faz parte da vida — e que confere lastro para a felicidade. Perceba: evitamos esses fatos a toda hora.

Meu pai se foi, em abril de 2018, sem notícia de doença ou cirurgia. Sua morte foi anunciada, não pela antecedência do tempo, mas pelos jornais policiais da cidade e matérias sobre um assalto num domingo de manhã, que matou a tiros um aposentado na orla da praia.

Mas meu relacionamento com a morte, na verdade, começou muito antes disso. Quando meu irmão nasceu, eu estava prestes a completar dois anos. À época, foram muitos sentimentos misturados. Ele sempre foi o xodó e grande amor da minha vida, mas, com sua chegada, vivi o luto do meu reinado — já não era mais o centro das atenções dos meus pais. Logo depois, tive um encontrinho mais íntimo com o fim: apendicite supurada, peritonite, cirurgia de emergência, UTI, dreno, coma. Não me lembro de nada e quando pergunto algum detalhe, por menor que seja, minha mãe chora. Sinto que ela ainda vive tal luto em algum aspecto — e isso me faz recordar que, por mais que queiramos muito, a gente nunca entende o enlutamento do outro.

Mais tarde, a morte me presenteou com mais uma chance  de contemplar a vida, agradecer o que foi, e perdoar o que não chegou a ser. Há oito anos, com muita generosidade, a finitude deu sinais para meu pai olhar sua saúde mais de perto. Era a morte, de novo, nos convidando para um café. Meu pai, que era fumante desde cedo, acordou um dia falando um pouco enrolado, com dificuldade de segurar sequer uma xícara. Foi trabalhar mesmo assim. Sensível demais, sempre achou uma bobagem olhar com carinho para o que poderia ser considerado uma fragilidade — é contraditório, mas quase sempre nosso jeito de ser está nos protegendo de algo, você já notou? Pois sua teimosia não resistiu à insistência dos colegas de trabalho em levá-lo ao hospital. Quando cheguei, meu pai já estava sem sintoma nenhum, normalzinho de tudo, andando para lá e pra cá. “Só uma isquemia temporária”, disse ele fingindo despreocupação. Mas o resultado do exame concluiu um tumor benigno no cérebro do tamanho de um bonde.

Um susto. Essas notícias sempre assustam. Convidada inesperada, inconveniente, estremecedora das nossas certezas. Depois de meses de exames pré-operatórios e, finalmente, o abandono do cigarro, a cirurgia foi um sucesso. Remoção total do tumor e sem sequelas. Hoje, olho para essa época e vejo como foi sofrido ter a sensação de estar velando meu pai ainda vivo, imaginando tudo o que poderia ser depois daquele procedimento hospitalar. Era muito duro contemplar todas as possibilidades de sequelas, perda dos sentidos, mobilidade, e a sua própria morte. Mas que grande oportunidade de contemplar o fim essa experiência trazia! Penso na generosidade da realidade em me proporcionar um aprendizado tão grande e que me fortaleceu muitíssimo para o que vivo hoje.

Nessas horas, nem tudo precisa fazer sentido, não precisamos decifrar todos os significados. Mas, se conseguirmos, num momento de lucidez, compreender que há ali uma chance de espiar, com curiosidade, a finitude, isso, por si só, já é de uma preciosidade tremenda. Porque, mesmo que não seja o fim derradeiro, como foi o caso do meu pai nessa cirurgia, uma hora ou outra acabará sendo — para os outros e para nós. O fim é a única certeza, a gente sabe disso.

E se formos olhar para os fins de ciclos, vamos perceber que eles não se resumem exclusivamente à morte. Eles estão em toda parte. A natureza nos traz essa noção o tempo todo: seja com dia e noite, estações do ano, fases da lua, marés. Tudo está em movimento, de forma cíclica, acabando e começando, nascendo e morrendo. E isso é maravilhoso. Dizem até que todas as células do nosso corpo se renovam a cada sete anos. Então já somos outra pessoa faz tempo! E para além da questão celular, imagine ser exatamente a mesma pessoa por anos? Significaria que não melhoramos nada? Não aprendemos algo que nos engrandeceu? Que não vivemos, que não evoluímos?

Pensando assim é quase uma afronta encontrar alguém na rua e dizer “nossa, você não mudou nada”, como se fosse um elogio. Mas é o que a gente mais gosta de ouvir: algo que nega nosso envelhecimento, que deixa todas as mudanças um pouco previsíveis, estáticas,  que nos deixa minimamente no controle das coisas. É um jeito de nos sentirmos seguros.

Camuflar todas as mudanças da nossa vida não faz com que os ciclos parem de se encerrar, só faz com que eles causem ainda mais espanto quando chegarem. Só faz com que nos sintamos ainda menos preparados para esses momentos, e acredite: eles sempre acontecem. Para a alegria ou tristeza, saúde ou doença,  a nossa hora sempre chega.

Mas como estamos tomando contato com essa verdade hoje? Estamos mantendo um relacionamento saudável com o fim das coisas? Conseguimos espreitar esses fatos com lucidez?

Dá medo? Claro que dá medo. Estamos isolados na cultura da felicidade. A cultura do sucesso não deixa espaço para falar de perdas, fragilidades, morte.  

Então, já começamos essa trilha com um convite! Um convite formal, por escrito, mas muito leve e carinhoso. Além de refletirmos sobre questões profundas com bastante delicadeza, durante essa jornada, também vamos organizar um Death Café — um modelo de encontro para conversar aberta e confortavelmente sobre a morte, criado por Sue Barsky Reid e Jon Underwood em 2011, em Londres. A metodologia é aberta e pode ser replicada de forma autônoma. Sendo assim, desde sua primeira edição, já foram realizados mais de seis mil encontros em 56 países ao redor do mundo de forma voluntária e colaborativa.

Vamos ter a chance de tomar consciência dos (nem tão lindos) pequenos fins que estão abrindo espaço para que a vida seja a melhor possível. Conversaremos sobre presença, sobre nossos medos e vamos estreitar ainda mais nossos laços para nos apoiarmos umas nas outras nesse caminho comum. Se você ficou interessada, clique aqui para ter mais informações e se inscrever. A gente se vê em breve! 


Nathália Petrovich é gerente de experiências na Comum. Tem olhado a morte e a impermanência das coisas como uma ótima perspectiva para se viver de forma ampla, no presente. 


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