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#3 [texto] Perdas invisibilizadas

 Olhar de Beatriz Xavier, artista convidada para nossa trilha de Finitude

Olhar de Beatriz Xavier, artista convidada para nossa trilha de Finitude

Somos ensinados a vencer. Mas e quando olhamos para as minorias oprimidas, que lutam diariamente para sobreviver, será que a conversa é a mesma? Há cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil; somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo; 48% das mulheres são demitidas após licença-maternidade; último levantamento do IBGE apontou que 52,52% das mulheres negras não vive em união, independente do estado civil — confirmando que elas sofrem na pele os efeitos da solidão e do preterimento durante toda a vida. Na carreira, no amor, nos direitos mais básicos, na garantia de um viver seguro: para onde quer que olhemos, a opressão está lá, como um aviso de que perder, para as minorias, é de praxe. Frente a esse cenário, de que forma jogamos luz à questão e trazemos as minorias para o centro de discussão? De que forma podemos, a partir daí, desenvolver uma jornada de florescimento que respeita as diferentes vivências e que faça os devidos recortes de gênero, sem, assim, excluir ninguém?

Experimenta ser preto na favela pra você ver

O que rola com preto e pobre

Não aparece na TV

Música de Bia Ferreira

Caos visível, luto constante

Na periferia, todos os dias começam com a mesma dúvida: o que a gente vai perder hoje?

De manhã na fila do pão, à noite atrás de quem espera pelo único ônibus que sobe o morro, e na fila sem fim das minorias, a mulher negra é, talvez, aquela que sempre ocupa o último lugar. Eu, como negra de classe média, olho com ternura para a trajetória de cada uma delas porque sei que as minhas perdas se tornam pequenas perto daquelas que vivem chorando mortes diárias (de pessoas, memórias, sonhos, voz, esperanças). A realidade das mulheres negras que vivem nas comunidades do Brasil é amarga, e uma das maiores perdas é, infelizmente, a da visibilidade.

Perda, aqui, entra no sentido mais amplo que a palavra possa ter, englobando todos os sentidos possíveis da vida de quem vive em territórios populares. Para as mulheres, esse poço é ainda mais fundo porque vivenciam pequenos lutos, em diversas vertentes, desde muito cedo.

Um dos recortes no retrato das periferias dos grandes centros é a gravidez na adolescência — o que pode significar a primeira perda de uma menina que tinha muitos sonhos pela frente, mas que foram interrompidos pela chegada de um bebê inesperado quando se tem 12 anos. Cerca de 70% das jovens mães no Brasil são negras, e 1 entre cada 5 crianças que nascem no país tem mãe com idade entre 12 e 18 anos. Quando a decisão de algumas delas é pelo aborto, a falta de condições financeiras e de acesso a serviços de saúde as levam ao procedimento clandestino ou até mesmo métodos caseiros. O resultado disso? O dobro de número de óbitos de mulheres negras comparado com as mortes entre as brancas. Essas garotas experimentam a dor de perder um filho, a ausência do pai do bebê, o desamparo emocional e econômico, a falta de informação. Ao procurar ajuda antes ou depois do aborto, ainda enfrentam o racismo institucionalizado em forma de discriminação e não acolhimento.

O documentário de Sandra Werneck, intitulado “Meninas”, mostra as histórias das meninas-mães Luana, Evelin, Edilene e Joice em meio à violência e pobreza aonde vivem.

Mulher, negra e favelada todo dia

Em meio a esse cenário de desamparo total, as mulheres (entenda crianças, adolescentes e adultas) da periferia, ao abrirem os olhos para um novo dia, se vêem acuadas, sem ter para onde correr — e não é só da bala perdida, mas também da opressão e da desigualdade. Elisangela Viana Ferreira, auxiliar de serviços gerais desempregada, 42 anos, é nascida e criada no Jacarezinho/RJ e desde pequena aprendeu com a mãe e o pai que, mesmo em meio ao sofrimento que você vivencia a cada perda, é preciso olhar para a dor do outro, enxergar que há, ali, também um sofrimento coletivo. Por isso, acha que a maior perda para as pessoas da comunidade é o direito de ir e vir: você acordar para sair da favela sem saber se vai voltar.

Élida de Aquino Batista, empresária fundadora da AfrôBox, 27 anos, leva para a vida o que traz em sua essência como cidadã do bairro Anchieta, subúrbio da capital carioca. E tem o mesmo sentimento de Elisangela em relação à privação do direito de ir e vir, mas fala de uma perspectiva mais prática, como o fato, por exemplo, de pouquíssimas linhas de ônibus ligarem o seu bairro aos pontos mais relevantes da cidade — sem contar o número reduzido de linhas que funcionam até mais tarde. Depois desse horário? Os moradores do Anchieta (e de várias outras comunidades) não têm o que fazer: a única opção é conviver com a insegurança e a violência para voltar para casa. A perda do direito à segurança é também evidenciada pela empresária, que vê o seu bairro em meio ao fogo cruzado, sem policiamento, sem apoio, sem suporte.

O Coletivo Nós, Mulheres da Periferia criou, em celebração ao Dia Internacional das Mulheres em 2017, o documentário “Nós, Carolinas”, inspirado pela história da escritora Carolina Maria de Jesus e ambientado pelo universo feminino nas comunidades e bairros da periferia para contar a trajetória de quatro mulheres, de 17 a 94 anos, que se cruzam quando falamos sobre racismo, preconceito, maternidade, amor e falta de acesso à educação.

Pequenas mortes diárias

Elisangela e Élida, junto com todas as outras de regiões periféricas, experimentam perdas numa constância perturbadora.

Uma delas é a da oportunidade. Como afroempreendedora, Élida teve perdas significativas em seu negócio e mesmo cada rompimento tendo acontecido de uma forma diferente, todos eles trouxeram decepção, questionamentos sobre si mesma e receios. A profissão (ou o que a gente escolheu fazer da vida como ganha-pão) tem relação direta com a forma como a gente se vê e como somos vistos. O que acontece, então, quando as oportunidades de emprego não aparecem? Essa é uma angústia vivida pelas mulheres da favela em relação às incertezas do mercado de trabalho que privilegia os brancos e que, por isso, faz brotar outras faltas transversais — como da autoestima e da autoconfiança.

Luto sem resposta

A morte, no meio de todas essas outras faltas dolorosas, é a realidade da ausência velada por mulheres negras da periferia todo o tempo, e a disparidade dos números em relação a lugares privilegiados merece destaque. Na periferia, os inocentes perdem suas vidas a cada 24h por bala perdida — o Brasil é o terceiro na América Latina em mortes por esses disparos —, e Elisangela não encontra palavras para explicar a tristeza que se instaura na comunidade quando isso acontece. Para Élida, a perda de uma pessoa significa impotência porque congela os sentidos e exige que você reorganize sua mente para aceitar e conviver com tal ausência.

Se a gente parar para analisar a vida nas comunidades, vamos abrir nossos olhos para ver que as crianças, jovens e adultos negros estão sendo exterminados (sei que a palavra é forte, mas é preciso sermos realistas em um tema tão perturbador). Falta de acesso a uma saúde não precária, mortalidade infantil e materna, violência contra a mulher, homicídios: só não vê a gravidade desse cotidiano quem não quer. Como num filme que só tem começo e meio porque o final feliz fica fora do roteiro, a mochila dos filhos continua pronta para a escola, o guarda-roupa continua arrumado como se os filhos estivessem perto de chegar em casa, as mães ainda esperam pelo beijo de boa noite. Mas eles se foram, sem chance de voltar. A dor dos parentes e familiares que perdem seus entes queridos pela violência é o que fica, assim como os casos sem respostas, sem justiça, sem culpados. De acordo com a Lei brasileira de Homicídios, um crime prescreve em 20 anos, mas e a dor? O sofrimento de quem perde um filho, irmão, parente ou amigo nunca é amenizado, e muitas vezes vira revolta porque a descrença no Sistema Judiciário é muito maior do que a esperança de ter o assassino preso, julgado e condenado (pasmem: apenas 6% dos homicídios dolosos — com intenção de matar — são solucionados no país).   

A dor que se transforma em luta social

Assim como os casos não solucionados, outro que vai ficar para sempre em aberto é o mês de maio de 2006, conhecido como “o mês que não acabou” porque foi palco para a maior chacina do século 21 no Brasil: em apenas uma semana, 450 cidadãos e 43 agentes públicos morreram em São Paulo vítimas de arma de fogo, sendo que a maioria dos casos fazia parte de uma ação de vingança dos agentes de segurança do Estado contra a facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Só no Dia das Mães daquele ano, 107 pessoas foram assassinadas. Uma delas era o filho de Débora Maira da Silva, de 29 anos, assassinado no Morro da Nova Cintra, periferia de Santos/SP. Com a perda e a vontade de lutar para combater os crimes cometidos por policiais de todo o país, Débora fundou o movimento social Mães de Maio. Desde então, marcha com muitas outras mães em busca de justiça. Mas ainda sente que não tem o direito de comemorar o Dia das Mães porque dor e saudade não lhe faltam, mas um filho sim.

A perda dos filhos pela violência policial e a dor que acompanha esse luto leva mulheres a transformarem suas vidas em uma batalha diária, e muitas delas que já vivenciaram isso na periferia de São Paulo querem inspirar outras mães no livro “Mães em Luta: 10 anos dos crimes de maio de 2006”, através de histórias devastadoras que acabaram sendo combustível para a luta que não não tem data para acabar.

O documentário “Luto como Mãe”, do cineasta Luis Carlos Nascimento, relata o sofrimento e a coragem de mães que perderam seus filhos para a violência no Rio e lutam contra o tempo, o esquecimento e a impunidade.

 

Solidão tem cor

E se ser mãe na periferia é viver com o medo constante de perder seu filho a qualquer momento, o amor também é um lugar onde a paz não se instala para a mulher da periferia, que sente na pele negra a dor da solidão, nascida a partir da falta de afetividade e do racismo, mais uma grande perda no contexto histórico popular. Essas mulheres, na busca por mais amor, se deparam com a dificuldade de encontrar parceiros fixos ou uma relação estável porque têm seu lugar reservado na fila da inferioridade (nessa fila aqui, elas estão lá na frente, não no final). A negra é estereotipada como figura sexual nos relacionamentos, e quando até mesmo o homem negro decide se casar, as estatísticas mostram que eles preferem as brancas, escolha que reflete a problemática de gênero e raça arraigada na sociedade desde o período da escravidão, onde o papel da negra era servir ao homem casado com a não negra.

Na rotina periférica, o sentimento de estar só ajuda essas mulheres a constatarem como estão separadas emocionalmente do outro e, mais do que isso, como precisam seguir sozinhas para enfrentar todas as outras perdas. A negra da favela precisa maquiar a sua tristeza para fazer parecer que ela não está ali. E é exatamente nesse momento, muitas vezes, que a depressão chega sem pedir licença. Aí, a cobrança passa a ser outra: “deixa de frescura”, uns dizem; “pobre não pode se dar ao luxo de não sair da cama”, escutam do outro lado.

Para Flávia Souza, atriz e fundadora do MovimenCure, em entrevista para a Agência Nacional das Favelas, é exigido das mulheres negras serem as mais fortes porque o Estado é omisso e desumano, incapaz de reconhecer nelas suas fraquezas inevitáveis, o que alimenta a ideia racista de que elas são mais objetos do que humanas. Ser discriminada e rejeitada diariamente funciona como um gatilho para a saúde mental, fazendo com que elas estejam em alerta 24 horas por dia se questionando se vão ser aceitas, se vão sofrer violência policial ou sexual, se vão algum dia deixar de ser vulneráveis. E se precisarem de ajuda médica, a espera é a única resposta que recebem, restando a elas, protagonistas de suas próprias histórias, a ressignificação da dor de ser solitária em força para seguir caminhando.
 

Apesar de tanto não e tanta dor que nos invade,

Somos nós a alegria da cidade

Apesar de tanto não e tanta marginalidade,

Somos nós a alegria da cidade

Música de Lazzo Matumbi

  Ana Cláudia Lemos Pacheco transformou sua    tese de doutorado    no livro    “Mulher negra: afetividade e solidão”   .

Ana Cláudia Lemos Pacheco transformou sua tese de doutorado no livro “Mulher negra: afetividade e solidão”.

O fim pode ser um começo?

Encontrar, na solidão, na fraqueza e nas perdas caminhos possíveis para a sobrevivência é fazer com que elas abram espaço para (re)começos. Porque ser mulher, negra e periférica é incluir o esquecimento na extensa lista de pequenos e grandes lutos. Elisangela diz que ser mulher na favela é não ter visão de futuro, é lidar com o descaso do governo, com o não investimento em saúde e educação, com a falta de emprego.

Quando a gente olha para as histórias dessas mulheres, sente que algo precisa ser transformado. E talvez essa transformação possa vir de dentro de nós mesmas, externada para acolher quem sente tanta dor. É complicado pensar que, em meio a um turbilhão de más notícias nesse ‘telejornal’ da realidade negra na periferia, nós podemos fazer algo pequeno que possa causar um impacto muito grande. Falando mais uma vez por mim, a negra de classe média que escreve esse texto tão tocada por tudo o que leu e ouviu, nosso aprendizado com o que elas vivenciam é, talvez, um jeito carinhoso de segurar a mão delas e dizer: estamos juntas. É experimentar o compartilhamento dessas dores para extrair disso uma força fora do comum, é ajudá-las a superar o luto de todos os dias. Afinal, o que importa não é o tamanho da sua perda ou a da mulher negra que mora na comunidade, mas como a gente lida com ela, entrega, aceita e, por mais complexo que possa parecer, agradece. Nessa palco de vivências, a negra luta para ter voz, e quando a nossa voz se junta com a dela, o acolhimento se faz presente e o poder feminino se multiplica (dentro e fora da periferia).

Ser periférica, para Élida, é viver à margem — da forma mais literal que isso possa ser. É se acostumar a viver sem ter muita coisa, e quando se tem a chance de romper as fronteiras além do morro, a perda é ainda maior: falta status, falta pertencimento. “Tanta falta e a gente ainda tem de provar para si mesma que não falta nada”, ela desabafa, lembrando ao que se agarra para tentar superar tudo isso. Sagacidade, resiliência, malemolência urbana é o que Élida, Elisangela e cada mulher negra da periferia têm de sobra e, quando elas chegam aonde quer que queiram estar, têm de chegar para propagar impacto em massa, para se fazer reconhecer, para parar de perder.


Juliana Lima é apaixonada pelas palavras, redatora publicitária, escreve sobre gênero e raça e também se aventura pelo mundo fashion como jornalista de moda. É de Beagá, fala 'uai sô, benzadeus!' e tem uma curiosidade sem fim, além de ser conhecida por falar milhões de palavras por minuto - e pensar na mesma velocidade. Você pode encontrá-la também no @juaraujolima.


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