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#17 [texto] Quando tudo se refaz: o fim como uma chance de reconfiguração

Costumamos olhar para o fim de algo como a pior coisa que poderia nos acontecer.

Todos nós somos assim. É como operamos biologicamente e como costuramos as nossas relações sociais de interdependência. Nos apegamos, seguramos firme aquilo que nos faz pertencer, nos dá conforto, acolhimento, que cria vínculo.

Nascemos e já buscamos uma figura de referência. Segundo a Teoria do Apego (ou teoria da vinculação), bebês e crianças precisam criar um relacionamento com ao menos uma pessoa que simbolize vínculo, um cuidador, que geralmente é a mãe ou os pais. E isso acontece por toda a vida dos primatas:

"A Teoria do apego revela o papel central das relações no desenvolvimento humano, do berço ao túmulo. Começando da infância e seguindo ao longo da vida, a saúde mental de um indivíduo está intimamente ligada à relações com figuras de apego que podem oferecer suporte emocional e proteção."
"As relações humanas de apego são reguladas pelo sistema comportamental/motivacional que se desenvolve na infância e é compartilhado com outros primatas. Esse sistema monitora a proximidade física e a disponibilidade psicológica de uma figura de apego mais forte e mais sábia, e ativa/regula comportamentos de apego em relação àquela pessoa. Enquanto o indivíduo se sentir à vontade, a figura de apego funciona como uma base segura cuja presença de suporte incentiva a exploração, brincadeiras, além de outros comportamentos sociais."
Tradução livre de trecho do artigo "Modelos internos de funcionamento dentro de relações de apego", de Inge Bretherton e Kristine A. Munholland (Internal Working Models in Attachment Relationships: A Construct Revisited).

É meta biológica de sobrevivência e meta psicológica de segurança. Fica bem claro com as nossas relações, mas também acontece com o que consideramos conhecido: uma casa em que moramos desde pequenas, um objeto que guardamos por anos a fio, um trabalho de longa data.

E se dentro estamos programados para o apego, por fora a sociedade também reforça a ideia de que sucesso tem a ver, diretamente, com a perenidade das coisas. Vê só: desde cedo, aprendemos que tudo o que deu certo é longo, duradouro. Segue eternamente porque é forte e resiste aos percalços. Pode ser uma relação que fez bodas de ouro, uma pessoa que venceu um câncer ou um diretor de uma empresa que começou como menino do almoxarifado e subiu os degraus corporativos em 30 anos de dedicação.

Essas são as histórias de sucesso que ouvimos — e todas estão ligadas a coisas que perduram, anos e anos, na alegria e na tristeza.

Somos, então, adultos que não sabem acabar as coisas, no sentido de botar um ponto final. Confundimos terminar com perder — e conectamos os términos com sofrimento e dor, apenas.

 Foto de  Beatriz Xavier , artista convidada para ilustrar a nossa trilha de Finitude

Foto de Beatriz Xavier, artista convidada para ilustrar a nossa trilha de Finitude

É isso que temos explorado nessa jornada: a nossa relação com a finitude. Até aqui, abrimos espaço para olhar para ela com cuidado, questioná-la. Ouvimos mulheres que rodeiam a morte como símbolo e buscam outros olhares, que não os usuais de peso e tabu. Nessa segunda fase, lançamos um olhar para dentro a partir das novas perspectivas para então começar a construir a nossa própria: como é que nós nos relacionamos com os fins? De que forma poderia ser diferente, mais benéfico e próspero?

Todos os caminhos apontam para o mesmo lugar: o fim também abre, consigo, uma porta para o novo. É, se olharmos bem, um convite tremendo para uma outra reconfiguração, outros arranjos de vida. Tudo nasce e morre, num loop eterno.

Términos também botam lupa na vida — e em tudo o que ficou ali depois do tremor do fim. É como se os olhos aumentassem para o momento presente, as pessoas ao redor, para o que temos de fato, e não para o que deixamos de ter. As cenas ganham mais cor: é como se colocássemos um óculos de alta definição.

"Quando tudo se desintegra, somos submetidos a uma espécie de teste, e também a um certo processo de cura."
Pema Chodron, Quando tudo se desfaz: orientações para tempos difíceis

Tudo se desfaz, mas logo em seguida, se refaz. E é nisso que devemos mirar.

Os fins podem ser difíceis e doloridos. São encerramentos, que trazem com eles aprendizados e luto. Mas eles são apostas de que existem outros jeitos de montar o quebra-cabeça, que podem fazer tanto ou mais sentido que o anterior. O caminho mais benéfico de olhar para algo que se encerra é esse: cuidar da dor, honrar o que foi, mas, da forma que for possível, abraçar o recomeço.

Finitude, então, deixa de ser sobre morte, e passa a ser sobre vida.

"coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida."
Trecho da música Não tenho medo da morte, de Gilberto Gil

Com esse desvio na mirada, já podemos começar a tecer uma relação mais íntima com a morte. Essa relação também é mais arejada e possível. Porque já sabemos que tudo morre, acaba, e isso não parece mais ser absurdo, trágico ou implacável. Perder não é mais só deixar de ter, é também sobre transformação.

A partir daqui podemos começar a sair de nós mesmas para enxergar o entorno: a perda dos outros. Fortalecidas sob esse entendimento mais suave de fim, podemos falar sobre perdas gestacionais e de recém-nascidos, perdas coletivas e como elas reverberam socialmente, sobre como apoiar outras pessoas nos processos delas, ou como educar uma geração inteira de crianças para que elas, ao contrário de nós, saibam morrer, no sentido mais amplo da palavra.

Seguimos juntas, para a terceira fase dessa nossa jornada.


Anna Haddad é fundadora da Comum. Trabalha com projetos que envolvem gênero e educação, principalmente no campo social, e escreve sobre o assunto por aí.


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