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#14 Alimentação como autocuidado: caminhos para transformar sua relação com a comida

Falar de comida, de alimentação, de dieta, de nutrientes, de saudável, tem sempre um espaço para a polêmica, para as contradições, para as receitas prontas, e, claro, para uma sensação sem fim de culpa e inadequação. Acho que não há tema mais confuso quando falamos de saúde, ainda mais quando adentramos o misterioso e inexplorado caminho da saúde autônoma, tema do mês da trilha aqui na Comum.

 Ilustração: Laura Berger

Ilustração: Laura Berger

Se a gente para e pensa na quantidade de informações por aí que nos dizem o que devemos ou não comer, em como devemos comer, em quão errado estamos comendo, em que tudo depende da gente ter força de vontade e disciplina para seguir um plano alimentar, que o segredo de perder peso é só fechar a boca — e por aí vai! — começamos a entender por que falhamos miseravelmente em conseguir ficar em paz com o que comemos, como comemos, com nosso peso, com nossa saúde, com nosso corpo, com nossa autoestima.

Esse texto é um jeito singelo da gente começar, ou até continuar, um processo de se desvencilhar de tudo isso, e cultivar uma relação consciente com a comida, na relação dela com nossa saúde física e mental, no nosso cuidado, e em viver em paz com a gente mesma.

Será que o que aprendemos sobre alimentação saudável realmente é verdade?

Já se questionou que aquilo que você conhece e é amplamente divulgado como verdade sobre comidas saudáveis, dietas de emagrecimento, tratamentos para doenças e condições crônicas de saúde física e mental pode não ser a única opção para você usar? E, inclusive, pode ser que existam outras formas de você cuidar da sua alimentação e da sua saúde que sejam mais compatíveis, mais eficientes, com menos efeitos colaterais, e mais benéficas com seu organismo do que outras?

Muito do que a maioria de nós sabemos sobre alimentação saudável vem das teorias (e lendas urbanas) das dietas restritivas, das receitas de comida saudável com o ingrediente milagroso do mês, da reeducação alimentar por meio de algum jeito mágico de mudar sua relação com a comida, ou, no final das contas, de tentar se encaixar em regras inflexíveis ou em conceitos abstratos e rasos demais.

Claro que a ciência pode ser muito útil, bem como os profissionais de saúde que estudam e nos orientam, e podem e devem ser utilizados para tal. Porém, temos que lembrar de algumas coisas antes de confiar cegamente e colocar as recomendações e tratamentos em prática:

• Existem outros pontos de vista sobre o dilema que você tem vivido com a sua alimentação, peso, saúde, autoimagem do corpo. Talvez o que aquele profissional te ofereça não seja o mais adequado para você — seja porque você não concorda ou não se encaixa com o plano proposto, seja porque as informações que foram usadas para determinar as ações do plano estão defasadas, incompletas ou influenciadas por outros interesses.

• Pesquise em fontes credíveis sobre as questões que você vive para ampliar sua forma de enxergar a sua alimentação e saúde e também formas de lidar com elas. Porém, sempre com espírito crítico. Muito da ciência voltada para a nutrição e os tratamentos de saúde são estudos financiados por grandes corporações com poucos interesses em beneficiar a humanidade e muitos interesses econômicos. Uma parte considerável das informações holísticas podem ser baseadas em pouco estudo ou em conceitos que não foram colocados em prática por tempo suficiente para se observar os efeitos nos mais diversos tipos de indivíduos.

• Considere como prioridade o respeito à sua bioindividualidade, ou seja, todas as variáveis que fazem você ser quem é. Ninguém conhece mais como seu corpo e mente funcionam que você. E mesmo que você não tenha tanta consciência, você pode investir em desenvolver essa intimidade consigo mesma exatamente para perceber se as orientações de dieta ou tratamento que vêm seguindo estão surtindo efeito benéfico ou maléfico. Nem o tratamento mais de ponta da ciência biomédica ou o mais natureba holístico são infalíveis, não têm efeitos colaterais indesejados, ou não têm pelo menos um pedaço que seja uma série de tentativas e erros.

Então em quem confiar, nessa história?

Na sabedoria do seu próprio corpo.

Vamos pegar um pequeno pedaço dessa história toda aí de cima, e focar em um aspecto muito essencial de quando falamos de alimentação saudável: a fome. Ela é um indicador incrível e complexo de saúde, porque nos indica o status do funcionamento de todo o nosso organismo.

A expert em Mindful Eating (ou Alimentação Consciente), Jan Chozen Bays, nos ajuda a entender isso com o seu conceito das oito fomes:

• Fome do Estômago: essa é a fome natural, o corpo precisa de energia, manda sinais para o estômago, que nos causaa a impressão “barriga vazia”, e nos faz procurar alimento. É essa fome também que vai nos indicar quando estamos satisfeitas com a quantidade, como também se consumimos algo a mais ou que não nos cai bem. Quando temos esse tipo de fome, qualquer alimento é capaz de saciá-la, e em pouco minutos já começamos a ter uma sensação de saciedade.

• Fome Celular: vem da necessidade de um determinado nutriente, como carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas ou minerais, normalmente de uma combinação deles. Pode ser por uma carência momentânea ou crônica. Inclusive de água, já que o corpo pode enviar um sinal de fome como forma de conseguir líquidos. O livro “Breaking the Food Seduction”, de Neal Barnard, fala sobre a base fisiológica na criação de alguns hábitos alimentares.

• Fomes Sensorial – Olho, Ouvido, Nariz e Boca: essas quatro fomes são criadas a partir de nossa experiência sensorial. É aquela fome que surge porque apareceu o colega de trabalho com um pacote de biscoitos, o som das pessoas mastigando pipoca no cinema, com o cheiro de batata frita no ar, do prazer desperto por texturas, temperaturas e sabores na língua. É aquele desejo por algo crocante e salgadinho, ou doce e cremoso, e que só acalmamos quando conseguimos criar essas sensações, normalmente associadas a certas comidas específicas.

• Fome da Mente: é a governada pelas informações que vamos acumulando sobre o que, como e por que se alimentar. Vem a partir de regras que aprendemos e criamos, e é uma grande parte do que constitui fazer uma dieta restritiva. Como “tenho que comer seis vezes por dia”, “tenho que comer mais proteínas e menos carboidratos”, “tenho que cortar o açúcar”, e por aí vai. A questão é que nossa mente muda de ideia o tempo todo, desperta nossa autocrítica, fica julgando nossas escolhas e, ainda por cima, as informações sobre nutrição e saúde mudam cada vez que se faz uma nova pesquisa científica, e isso nos deixa confusas — e essa fome fora de controle.

• Fome Emocional: é a fome criada por nossos estados emocionais. Solidão, tristeza, frustração, raiva, tédio, restrição de prazer, e até alegria. Alimento está conectado aos nossos estados emocionais desde que nascemos, uma vez que é um mecanismo de sobrevivência o vínculo emocional da amamentação, como forma de criar o comportamento de mamar no bebê e a vontade de dar de mamar na mãe. É nessa fome que moram “vou comer o bolo de chocolate porque eu mereço”, “tenho direito a um dia de esbórnia depois de me privar com a dieta a semana toda”, “vou beber todas porque não aguento meu trabalho”, e tantas outras justificativas para nos entregarmos a tentativa em vão de preencher nossa necessidade de plenitude usando certas comidas de conforto. Essa é aquela que vem com o gosto amargo da culpa sempre atrelada.

Percebeu que a fome nunca é resultado de um só estímulo? Que a fome indica desbalanceamentos nutricionais, hormonais e de neurotransmissores, de funcionamento de órgãos e sistemas, de apegos emocionais, de luta pela sobrevivência e perpetuação da espécie, do que absorvemos de estímulos externos repetidos de novo e de novo ao nosso redor e que influenciam diretamente nossos pensamentos e comportamentos em torno da comida e da nossa autoimagem?

A fome em cada fase do ciclo menstrual

Preste atenção, por exemplo, nas manifestações de fome durante a sua fase pré-menstrual, para você conseguir perceber tudo isso que é falado acima. Nessa fase, é muito comum nós mulheres “perdermos o controle” da comida, comermos demais, comermos comidas consideradas não-saudáveis, comermos errado. E nada na face da Terra parece conseguir conter esse desejo.

Observa como cada tipo de fome se comporta nesse momento do ciclo:

- a fome do estômago parece maior, pois a fase pré-menstrual é considerada o “outono” do organismo feminino, momento de estocar energia para lidar com todos os processos da menstruação, nosso inverno, e do ciclo que continuará para criar a ovulação, nosso verão, tempo de abundância de fertilidade e de libido;

- a fome celular está possivelmente no seu pico, exatamente porque o corpo já sabe que vai perder nutrientes seja com uma possível gravidez, seja com o sangue menstrual, e que vai precisar de ajuda extra para se livrar do excesso de hormônios produzidos;

- a fome da mente parece estar em luta, nenhuma informação que conhecemos sobre como se alimentar de forma saudável parece ser páreo para a força total da próxima fome. Culpa e autocrítica estão bombando a todo vapor;

- a fome emocional tem seu apogeu nesse momento, pois nele nosso corpo (hormônios e neurotransmissores) abre um portal dimensional na nossa mente, e libera sem filtros TUDO que sentimos nossa vida inteira. Todos nossos medos, raivas, frustrações, decepções, dúvidas ficam em erupção na nossa cabeça e vão destruindo qualquer controle emocional que tentamos duramente manter durante as demais fases do ciclo, e aí nosso comportamento alimentar controlado à base de dieta restritiva ou de força de vontade desaparece e dá lugar ao monstro com fome dos desejos, que nada mais é que a manifestação do vazio emocional que aprendemos ao longo da vida a anestesiar com comida;

- as fomes sensoriais embarcam na fúria da fome emocional, e qualquer estímulo externo se torna um gatilho irresistível para correr atrás daquela sensação (passageira) de conforto e de segurança.

Eu gosto sempre de falar para a mulherada que uma boa forma de ajudar nosso corpo e mente de mulher nessa fase desafiante é investir em uma alimentação cíclica que considera as necessidades do organismo de nutrientes e de autocuidado em cada pedaço do ciclo.

O que podemos fazer para usar a alimentação como autocuidado

Como já é costume aqui na Comum, sempre investimos na ampliação da nossa própria consciência como base fundamental das nossas práticas, e com alimentação e saúde não é diferente. Até com as questões mais fisiológicas, as práticas de auto-observação são aliadas fundamentais para que não apenas possamos saber se estamos recebendo as orientações mais adequadas, como também saber colocá-las em prática com um corpo receptivo e uma mente presente.

O resultado mais importante é o ganho enorme que temos na nossa relação com a comida, que deixa de ser um ponto de angústia constante, e passa a ser fonte de nutrição para muito além dos nutrientes, na nossa relação com nosso corpo; que em vez de pensarmos que está no atrapalhando ou nos atacando passa a dialogar conosco e ser fonte de saúde; na nossa relação com nossa autoimagem, que a mente para de viver em constante autocrítica, e passa a ser fonte e amor e compaixão por nós mesmas.

Prática sugerida

Como sugestão de prática, podemos usar os tipos de fomes elencados neste texto como referência ou podemos reconhecer outras em nós. O importante aqui é investir na auto-observação, o que pode ser feito a partir dos seguintes questionamentos:

• Qual dessas fomes é a mais comum em mim? Há algumas mais frequentes ou mais fortes que outras?

• Quais os gatilhos que disparam essas fomes? Quais são meus padrões de alimentação e comportamento que podem criar algumas dessas fomes?

• Qual a atitude que tomo quando sinto fome? Eu consigo escolher me observar antes de automaticamente saciar o desejo por comida, percebendo quais as fomes por trás dele?

• Quais escolhas posso fazer quando tomo consciência do desejo por determinada comida? Posso escolher um alimento mais nutritivo para saciá-la? De que forma posso saciar a fome fisiológica (Estômago e Celular) e as Sensoriais, Mental e Emocional ao mesmo tempo?

• Enquanto estou comendo, que sensações e sentimentos vêm à superfície? De que forma estou lidando com cada uma delas? E depois que eu comi? O que meu corpo e minha mente me dizem algumas horas depois de comer sobre a última coisa que comi?

Parece um exercício extenuante e que dá muito trabalho, mas não é. Acredite em mim, em menos de 1 minuto somos capazes de sentir as respostas para cada uma dessas perguntas.

O principal nessa história é você simplesmente se voltar um pouquinho para dentro de si mesma, onde habitam as respostas que vão saciar seu desejo: por comidas, por saúde, e por contentamento.


Pioneira em Saúde Integrativa no Brasil, Melissa Setubal é certificada como coach de saúde pelo Institute for Integrative Nutrition e pela American Association of Drugless Practitioners (AADP). Especializada em Saúde da Mulher, criou a metodologia Ame-se por Inteiro, bem como diversos programas voltados para alimentação, ciclo menstrual e autoconhecimento, para apoiar as mulheres que sofrem na sua relação consigo mesmas, usando a alimentação e as emoções como suas melhores amigas. Atua como especialista em saúde integrativa com atendimentos individuais e em grupo para mulheres, em workshops, palestras, e aulas em instituições de ensino superior, e como escritora e em conteúdos em vídeos. Você pode encontrá-la no website www.melissasetubal.com.br

 

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