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#1 Autocompaixão: Você consegue ser tão gentil com você mesma como é com as outras pessoas?

Sabemos ser ótimas amigas. Estamos disponíveis para ajudar, cuidar, abraçar e dar conselhos carinhosos para quem está ao nosso redor. Mas temos grande dificuldade em sermos gentis com a gente, com o nosso mundo interno, com a nossa realidade. Nos julgamos, nos chibatamos e nos culpamos com mais frequência do que nos aceitamos e acolhemos.

O mundo nos ensina, desde sempre, que precisamos ser eficientes, perfeitas, boas no que fazemos. Que precisamos atender à várias expectativas. Ser boas filhas, estudar e tirar as melhores notas na escola para entrar numa boa universidade, depois conseguir um emprego que permita conquistar uma série de coisas. Precisamos casar, ter filhos, ser mães incríveis. Precisamos cuidar da saúde, ter uma vida espiritual. Precisamos viajar e conhecer outros lugares, comprar um imóvel, trocar de carro periodicamente. E assim por diante, incessantemente.

Sempre tem algo a ser conquistado. Não somos ensinadas a estar satisfeitas com o que temos, a precisar de menos para ser felizes, a apreciar as nossas próprias qualidades.

Pelo contrário: somos incentivadas a buscar uma felicidade que parece estar sempre fora do nosso alcance e, pior ainda, aprendemos a nos enxergar por comparação com outras mulheres.

Nossa auto-imagem vai sendo construída a partir de referenciais externos: nos sentimos bem conosco se estamos melhores em comparação à algumas pessoas. Aprendemos a competir desde muito cedo e vamos flutuando nossa percepção de nós mesmas conforme esses referenciais que adotamos. E aí fica impossível.

Não tem como, por comparação, nos sentirmos bem o tempo todo. Vai sempre existir alguém que tenha algo que não temos - seja uma relação, seja um carro, status ou aparência. Nos sentimos inferiores, nos isolamos, nos sentimos inadequadas, e temos vergonha de falar sobre isso. Como se o problema fosse unicamente nosso, enquanto, na verdade, ele é compartilhado por outras tantas mulheres.

1. Precisamos falar mais sobre autocompaixão

A autoestima depende desse referencial externo, existe a partir de uma comparação, por mais sutil que seja. A autocompaixão não. Ela tem a ver com resgatar uma aceitação incondicional, uma gentileza e compreensão do que quer que se apresente na nossa vida.

Para compreender melhor o que é autocompaixão, precisamos ter maior clareza do que significa compaixão. A compaixão é essa disposição de agir em benefício do outro. Se alguma pessoa com quem nos preocupamos nos pede ajuda, a gente se dispõe a ajudar e a tentar compreender as suas dificuldades, com o intuito de aliviar o seu sofrimento e trazer benefícios.

Autocompaixão é fazer o mesmo com nós mesmas, com o mesmo carinho e abertura.

A Kris Neff - pesquisadora e psicóloga da Universidade do Texas - fala o seguinte:

"Que tal nos sentirmos bem com nós mesmos, sem a necessidade de sermos melhores do que outros, caindo assim na armadilha do narcisismo/auto-reprovação?
Autocompaixão envolve sermos gentis com nós mesmos, quando a vida dá errado ou notamos algo sobre nós que não gostamos, em vez de sermos frios ou severamente autocríticos. Ela reconhece que a condição humana é imperfeita, assim, nos sentimos conectados aos outros quando falhamos ou sofremos, em vez de nos sentirmos separados ou isolados. Envolve também a conscientização – o reconhecimento e a aceitação imparcial das emoções dolorosas ao passo que surgem no momento atual. Ao invés de suprimir nossa dor, ou então torná-la um drama pessoal exagerado, vemos a nós mesmos e a nossa situação claramente.
Autocompaixão não exige que nos avaliemos positivamente ou que nos vejamos como melhores do que outros. Pelo contrário, as emoções positivas da autocompaixão surgem exatamente quando a autoestima cai. Quando não atendemos a nossas expectativas ou falhamos de alguma forma.
Isto significa que o senso de autovalorização intrínseco inerente à autocompaixão é altamente estável."

Sermos compassivas conosco é termos um olhar atento, uma disposição de cuidado com a gente mesma. É escutarmos as nossas necessidades e nos mover a partir do que tenha sentido para a nossa vida, sem precisar atender a uma expectativa externa para nos sentirmos bem.

Isso não significa ser condescendente, ou ficar imóvel. Pelo contrário. Tem a ver com aceitar a condição presente sem rejeitá-la, sem sermos duras. É a partir daí, dessa aceitação, que a gente consegue, inclusive, compreender e abraçar a necessidade de se transformar. Percebemos as nossas potencialidades e a dos outros, e somos capazes de nos acolher, assim como fazemos com os nossos melhores amigos.

2. Dureza, julgamento e culpa

Se não cultivamos esse espaço de gentileza, seguimos duras e rígidas conosco. Temos dificuldade em aceitar nossos erros e nos culpamos por eles. Nos cobramos para sermos perfeitas com frequência e nos desapontamos com as expectativas tão altas que criamos. Achamos que não estamos suficientemente prontas quando somos reconhecidas, porque temos dificuldade em aceitar que já merecemos a felicidade e o reconhecimento nesse exato momento. Nos julgamos pelos nossos pensamentos e emoções ruins, e os reprimimos.

Suportamos por muito tempo situações que não nos fazem bem por acharmos que não merecemos algo melhor. Nos sobrecarregamos de coisas, deveres, cobranças, perseguimos e projetamos nos outros nossas necessidades não atendidas de cuidado, valorização e aceitação. Temos dificuldade de expor as nossas fragilidades e vulnerabilidades.

Achamos que temos algum problema quando não cumprimos com qualquer um dos itens do “roteiro de felicidade” (como casar e ter filhos, por ex). Também, nos culpamos se não nos sentimos felizes quando estamos cumprindo com esse roteiro, ou se não atingimos alguma meta. Muitas vezes nos achamos estranhas, inadequadas, e nos sentimos pressionadas a sermos uma outra pessoa.

Ainda que seja possível viver a vida inteira assim, nessa lógica, de cobrança, julgamentos ou de cuidados ao outro passando por cima das nossas próprias necessidades, a longo prazo essas ações não se sustentam. Não por acaso, a síndrome de burnout (caracterizada por fadiga excessiva, desânimo, sensação de impotência e estresse) é tão presente entre os profissionais da saúde - grande parte, mulheres - que precisam cuidar dos outros grande parte do tempo.

3. O melhor: a habilidade de ser (auto)compassiva pode ser treinada

A Kristin Neff tem mostrado, através de diversos estudos, que cultivar a autocompaixão possibilita uma série de benefícios, como redução dos sintomas de estresse e depressão, além de outros sintomas de adoecimento mental; aumento da liberação do hormônio de ocitocina no corpo, responsável pelo prazer e pelas emoções prazerosas; diminuição da autocrítica e da sensação de isolamento; aumento da conexão entre as pessoas; e, principalmente, aumento de comportamentos pró-sociais, como a compaixão e a empatia.

Esse cultivo é feito, principalmente, através de práticas de corpo e mente, que envolvem meditação. Vamos falar mais dessas práticas nos próximos textos aqui na Comum.

Vivemos em cultura patriarcal, que cria milhares de prisões para as mulheres, que nos culpabiliza por tudo o que acontece de errado nas nossas vidas e que favorece a competição a qualquer custo.

Não há outra saída se não sermos mais gentis conosco e com as mulheres ao redor.


Autocompaixão para mulheres: a primeira trilha da Comum

Desde quando o fórum nasceu, ano passado, notamos que a cura pras nossas questões começava dentro de nós. Ou passava necessariamente por isso: entendermos nossas emoções, necessidades e sermos mais gentis conosco. Resolvemos então nos aproximar do tema da autocompaixão e conhecemos a Carol Bertolino, que estuda o assunto há algum tempo. 

A trilha da Comum desse mês é sobre autocompaixão e autonomia afetiva pra mulheres. Vamos explorar o tema juntas, através de textos, vídeos, conversas no fórum e práticas. A trilha começou no dia 10 de julho e segue até o encontro. Você pode ver todo o conteúdo dela aqui.


Imersão: autocompaixão em São Paulo

Uma imersão de dois dias (27 e 28 de agosto), em São Paulo, guiada pela Carol Bertolino e só pra mulheres. Aberta pra assinantes e não assinantes. Saiba mais e se inscreva aqui. 


Caroline Bertolino é psicóloga, formada pelo programa Mindful Self-Compassion, da própria Kris Neff, e pelo programa Cultivating Emotional Balance, com a Eve Ekman e o Alan Wallace. 

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