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#17 Cuidado ou responsabilidade? — de companheira à mãe numa mesma relação

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Cena 1

Você vai jantar na casa do seu namorado. Chegando lá, a mãe dele comenta, meio de canto, que o filho está magro. “A (insira seu nome aqui) não está alimentando bem o coitado”, você ouve de alguém da família.

Cena 2

O pai do seu companheiro vem te dar uns toques. Diz que agora que vocês estão juntos e você parece uma pessoa legal, centrada, bem que poderia dar um jeito na vida do filho dele.

Cena 3

Seu marido passa por problemas na carreira. Você tem de lidar com os comentários que não deu suporte necessário — lê-se: dar conta sozinha das tarefas domésticas e dos filhos — para que ele conseguisse chegar àquela promoção bacana.

* * *

Os contextos podem variar, as personagens podem até ser outras: mas a verdade é que muito provavelmente, se você está/esteve em um relacionamento heterossexual, então já passou por alguma situação parecida. Sublinho aqui heterossexual porque, apesar de relações homossexuais também passarem por isso — fruto daquela visão de amor romântico salvador que já vimos aqui na trilha —, as relações entre homem e mulher apresentam um componente perigoso que é a relação de poder.

A verdade é que junto com o parceiro vem também a responsabilidade de colocá-lo nos trilhos e de zelar pelo seu bem-estar.

Mas, afinal, qual o limite entre cuidar do seu companheiro e ter de agir como mãe dele?

Quando você o lembra de marcar médico, prepara uma marmita para ele levar ao trabalho, dá aquela força cuidando dos filhos sozinha no final de semana para que ele possa estudar para a prova do mestrado e age assim partindo de um lugar de gentileza, você está cuidando. Você está sendo parceira — o que é normal e até esperado quando estamos numa relação de companheirismo. Se essas atividades e outras de uma lista infindável vêm travestidas de obrigação, então é preciso acender o sinal vermelho.

Crescemos achando que é nossa missão mudar as pessoas. O cafajeste que só quer saber de balada, o cara que não quer nada da vida, o homem que bebe demais. Acreditamos que eles vão mudar, que só são assim porque não encontraram o amor verdadeiro. E aí carregamos nas costas esse fardo pesaroso e impossível. Primeiro porque não podemos mudar os outros e segundo porque relacionamento é troca, é divisão de cargas, é compartilhamento de responsabilidades.

Muitas das vezes, o que acontece é que participamos de uma cerimônia quase formal do passar de bastão quando começamos um relacionamento. A mãe, cuidadora do homem até aquele momento, entrega a incubência para a nova companheira, que agora tem de se virar nos trinta para dar conta do recado.

Mas não precisamos acolher a incapacidade afetiva dos outros nem abraçar imaturidades. Podemos, mas não somos obrigadas. Toda essa demanda nos deixa emocionalmente esgotadas a ponto de não conseguirmos olhar para nosso próprio mundo interno. Estamos sempre tão às voltas com os problemas dos nossos companheiros, imersas em seus mundos e em suas vontades que deixamos de, por cinco respiradas que seja, nos entregar para o que temos de mais precioso: a nossa existência, nossas necessidades reais. Porque mesmo quando queremos cuidar de alguém, só conseguimos fazê-lo se estivermos bem alicerçadas. Quando nosso eixo está firme.

É uma lógica difícil de quebrar essa de que não precisamos ser as mães dos nossos companheiros. Temos crenças que nos submetem a esse papel e dependências que parecem reiterar esse lugar de dívida para com o outro. Mas, uma vez que olhamos para dentro, também podemos descobrir nossos limites, traçar, a partir daí, um novo tipo de relação e fazer a ele o convite: E aí, vamos juntos, lado a lado?

Para o nosso bem e para o bem daqueles com quem nos relacionamentos, temos de soltar, sem culpa, esse bastão que nos passaram e começar a nutrir um espaço para que o outro cresça. Do nosso lado, teremos mais respiro para que olhemos para dentro, para que cuidamos de nós, para que alimentemos nosso sustentáculo com força e para que o mantenhamos com leveza. Do lado de lá, daremos a oportunidade para que o outro viva suas próprias experiências, para que amadureça por conta própria e para que aprenda.

Podemos ajudá-lo, claro, mas o esforço principal não deve ser nosso. Essa é a parceria mais benéfica que pode existir.

Nossa sugestão de prática

Se você vive/viveu uma relação que segue/seguiu esses padrões, ainda que um pouquinho, ou se você nunca parou para olhar para essas questões e acha que vale a pena fazer uma checagem, essa prática é pra você.

O ponto, aqui, é só ter consciência sobre a dinâmica que anda operando na relação. Não para, necessariamente, quebrar o pau da barraca e mudar tudo. Mas para se dar conta e observar, antes de qualquer coisa.

Vamos lá. Pare um pouquinho para responder essas perguntas. Tanto melhor se você tiver papel e caneta na mão. Procure, antes de escrever o que vier à cabeça, responder mentalmente.

1. Pense nos seus pais, ou na referência mais próxima de pai e mãe que você teve. Quem cuidava mais de quem? Como?

2. Pense em você e no seu companheiro/a atual ou passado. Escolha uma relação para examinar. Agora, responda de primeira: quem cuida mais de quem? Com calma, tente escrever ações de cuidado que cada um tem com o outro, a relação, os filhos ou a casa. Considere todas a linguagens de cuidado: preocupação, afeto, disponibilidade, tempo de qualidade, apoio e suporte materiais, entre outros. Faça uma lista. A intenção aqui não é ser exaustiva, nem categorizar as coisas. É trazer à tona tudo o que fazemos em relação e que fica invisível, sutil, escondido, ou é até mesmo tratado como obrigação e que nos ocupa tanto e consome tanta energia.

3. De tudo o que você faz no seu dia a dia pelo outro (ou pelas coisas compartilhadas), o quanto é visível e reconhecido e o quanto já está naturalizado, embrenhado no todo, quase que não visto? O quanto é visto como obrigação pelo outro ou pelos familiares/amigos?

4. Por último, pense no parceiro/a. O quanto do que ele/ela faz é visto/reconhecido? Ele/ela recebem mais visibilidade/reconhecimento por realizarem as tarefas/cuidados que realizam?

Um passo de cada vez em direção à relações mais lúcidas.

Seguimos juntas, no fórum.


Gabrielle Estevans é jornalista, editora de conteúdo e coordenadora de projetos com propósito. Nessa trilha, é editora-chefe, participante e caseira. 

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