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#13 Estar sozinha e inteira: cultivando a solitude sem medo

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Tempos atrás, quando o filme Sex and the City foi lançado, lembro de ter chorado um tanto (lá vem spoiler!) na cena em que a Carrie é deixada no altar. Vestida de noiva, fatidicamente pronta, mas abandonada na hora h. Lembro, inclusive, de ter comentado com uma amiga que — entre Bergmans e Titanics e quantos outros dramas você puder imaginar — aquela, sim, era, pra mim, a cena mais triste da história do cinema. Esses dias, fui rever o filme e me perguntei quão estranho é — entre desastres, lutos e outras catástrofes universais — eu sentir que a tragédia maior era uma mulher abandonada por um homem. Uma mulher vestida de noiva abandonada por um homem. Afinal, o que isso de fato representa? 

O estigma da mulher abandonada ou rejeitada ou solteirona vem, na verdade, de muito longe, originado em uma infância em que as brincadeiras já inscrevem uma diferença fundamental: enquanto os meninos brincam de astronautas, investigadores, aventureiros, esportistas, médicos e o que mais a imaginação permitir, as meninas ganham bonecas que avisam quando está na hora de trocar a fralda, panelinhas de plástico, vestidos de princesa à espera do príncipe salvador da pátria. Desde cedo, a mensagem é clara: aos meninos, o domínio do mundo; às meninas, o eixo da casa, da família, da maternidade. 

O espaço da mulher é, afinal, cercado por quatro paredes: construído com o auxílio de um par romântico, uma teórica vocação para cuidar e a ideia de que a combinação dessas duas presenças (do amor e dos filhos) vai resultar — sem sombra de dúvidas — em uma profunda sensação de realização. Enquanto meninos são criados para buscar a sua satisfação em muitos espaços diferentes (entre eles, a família e o amor), a mulher é confinada exclusivamente à casa — e sua identidade parece sempre se construir ao redor de uma figura romântica. Não é à toa que, também já na adolescência, surgem os primeiros sinais de que as relações têm pesos distintos para meninos e meninas. É natural que um menino não esteja se relacionando amorosamente sem que ninguém questione se isso simboliza alguma fragilidade dele, enquanto essa naturalidade raramente se aplica às meninas. 

Crescemos sob o frequente questionamento: “E o amor?”. É preciso ser amada, é preciso ser desejada, como se esse desejo fosse o selo de aprovação necessário para legitimar quem somos ou deixamos de ser. O carimbo final para determinar que, sim, somos, enfim, mulheres de verdade, não vamos ficar — como diz a clássica expressão — “para a titia”. Sob o estigma da mulher sozinha, o amor, para as mulheres, acaba por tomar uma dimensão muito maior do que para os homens, exatamente por vir atrelado à necessidade de ter a própria identidade validada. De um lado, o alívio por ter encontrado no olhar do outro a confirmação de que, afinal, temos mesmo algum valor; na contramão, a assustadora solidão e tudo que ela é capaz de representar para uma mulher. 

Diante da constante necessidade de buscar a nossa validação no outro, nos deparamos com a questão: como ultrapassar essa necessidade e arranjar meios de construir uma narrativa própria? 

Como ampliar os nossos espaços de realização e fazer da solidão não um fardo ou um atestado de fracasso, mas uma chance de aprofundar as próprias potencialidades? 

Conversando com amigas, já ouvi muitas delas dizerem que têm receio de almoçar sozinhas em um restaurante, por exemplo. A figura da mulher sozinha nunca se equipara à figura do homem sozinho: enquanto o homem é frequentemente associado a uma vida profissional ativa ou até mesmo à solteirice abraçada com orgulho, a mulher sozinha nos remete a uma incompletude. Sem par e sem filhos, sem a validação amorosa, o que resta? Se a noção de solidão já pode ser assustadora para muita gente, para nós, mulheres, ganha ares de esvaziamento identitário completo. Quem somos sem a validação do outro? Como ultrapassar o estigma? A desmistificação do que representa estar sozinha leva, enfim, à percepção de que, em oposição à solidão, existe também uma experiência chamada solitude.

Estar sozinha, portanto, não precisa ser necessariamente uma experiência negativa, que nos faz questionar a nossa própria identidade, mas pode ser, também, uma tentativa de delimitar o nosso espaço e criar uma narrativa própria, encontrando formas de legitimação que fujam à lógica determinada pelo sistema. 

Nesse sentido, aprender a estar sozinha é, na verdade, um exercício profundo de autoconhecimento, amor próprio e até mesmo uma forma de rever os nossos relacionamentos com os outros. Afinal, se não sabemos ficar sozinhas, qualquer companhia que apareça (seja amorosa ou não) será lida como um colete salva-vidas, que a gente agarra desesperadamente com medo de se afogar na própria solidão. É desse medo que surge, muitas vezes, a dependência emocional — lembra do texto sobre dependência e apego? —, e daí para mergulharmos em relacionamentos abusivos não falta muito. 

Mas, afinal, como exercitar a solitude? 

Durante muitos anos, meu maior medo foi ficar sozinha. No desespero por estar com os outros, permitia que o olhar deles me legitimasse e me modificasse de acordo com o que eles pensavam. E assim ia sendo jogada de um lado para o outro, feito uma bola de futebol, em função daqueles que me cercavam, em função da necessidade de mantê-los por perto e não ficar — em hipótese alguma — só comigo mesma. Levou algum tempo até eu confrontar essa fragilidade. Assim como o exercício do autocuidado, a solitude é, também, um exercício diário, constante, talvez eterno — especialmente se lembrarmos que ainda vivemos em uma sociedade que valoriza, o tempo todo, o estar acompanhado, as festas, as músicas, e nos faz tão pouco acostumados ao silêncio e à nossa própria companhia; uma sociedade que nos habilita pouco a escutar a nossa própria voz, porque é naturalmente mais fácil manter um sistema capitalista funcionando quando as vozes não destoam (especialmente as vozes femininas). 

Na minha trajetória em busca de uma relação melhor comigo mesma (e consequentemente com os outros, numa reação em cadeia também levantada por Stela Santin nesse vídeo sobre necessidades reais), acabei encontrando mecanismos que foram fazendo desse exercício diário da solitude uma experiência transformadora: 

A importância de cultivar a própria autonomia

Ser capaz de tomar as rédeas da própria vida talvez seja o primeiro passo para exercitar a solitude. A autonomia de poder fazer diversos programas sem depender da disponibilidade do outro não é apenas incrível por nos permitir desfrutar da nossa própria companhia, mas também por nos libertar das relações dependentes. A partir do momento em que podemos ir sozinhas ao cinema, a um restaurante, a uma exposição, e de fato gostar disso, a companhia do outro se torna um complemento, e não uma necessidade. Estar com o outro pode ser maravilhoso, mas é mais maravilhoso ainda quando não precisamos disso.

Tirar um tempinho pra você mesma deve ser uma prioridade

Esse ano, quando comecei a fazer o meu bullet journal, acabei criando um ritual para toda segunda-feira. Acordo, preparo um café, coloco uma playlist inspiradora e sento para programar a minha semana. Nesse momento, além de me distrair usando as minhas canetas coloridas e cantando loucamente, também revejo as minhas metas, os caminhos que ando seguindo, reajusto a rota, enfim, faço desse espaço um espaço meu, espaço de conversa interna, acolhimento e reflexão. 

Foi aí que percebi a importância de ter um tempo pra nós mesmas no meio da correria. Pode ser uma hora de caminhada na praia, pode ser meditação, pode ser cozinhar um almoço gostoso, ler um livro na rede, fazer um spa caseiro, pode ser terapia, dança, aquarela, o que for. Mas cultivar um momento seu com você mesma, fazendo algo que te faz bem e que te coloca em contato com as suas verdadeiras necessidades é essencial para que você não se deixe levar pelas necessidades que o mundo diz frequentemente que nós deveríamos ter. 

Impor limites é necessário

Assim como é importante fazer aquilo que nos faz bem, também é importante aprender a dizer não ao que nos desgasta e suga a nossa energia. Se relacionar — seja um relacionamento amoroso, familiar ou de amizade — exige, muitas vezes, que a gente aprenda a conciliar as nossas vontades com as vontades do outro. Faz parte abrir mão de vez em quando. Mas é preciso, também, estar atenta aos limites dessa conciliação.

Estar em lugares que odiamos estar, convivendo com pessoas com quem odiamos conviver pode ser um ralo energético tremendo. Se aprender a estar sozinha é um exercício de acolhimento e amor próprio, é inevitável que ele passe pela necessidade de refletir sobre onde estamos depositando a nossa energia. Para essa reflexão, propomos uma prática aqui. É um exercício contínuo, que vai nos abrindo espaço na mente para que passemos a reagir menos por impulso e mais conectadas à nossa essência. 

Não se compare com os outros

Para quem não está em um relacionamento amoroso, é fácil se sentir menos validada por isso, especialmente quando abrimos o Instagram ou o Facebook e tudo o que vemos são as conquistas e a vida aparentemente perfeita dos outros. Olhando de fora, todos os relacionamentos são impecáveis. Olhando de fora, é fácil pensar que estamos, de alguma forma, fracassando por não termos encontrado ainda aquilo que o outro — aparentemente! — já encontrou. 

Nessas horas, é válido lembrar que: 1) embora haja uma convenção social que nos empurra para um determinado molde de vida, nem todo mundo busca as mesmas experiências; 2) mesmo quando estamos buscando as mesmas experiências, cada um tem a sua bagagem, a sua história, o seu ritmo. Não estar se realizando no âmbito amoroso não quer dizer que você não possa encontrar realizações em muitas outras áreas da sua vida. 

Retomando o início do texto: sendo uma mulher, ampliar os espaços de realização é, também, uma forma de recusar a lógica que nos diz o tempo todo que só temos valor quando estamos acompanhadas. Sempre que escrevo sobre autocuidado, acabo repetindo a frase que resume a importância do assunto para mim:

Em um mundo que ensina a gente a se odiar (e ainda lucra com isso), construir uma relação saudável com você mesma é um ato revolucionário. 

Da mesma forma, em uma sociedade que produz mulheres para serem legitimadas em função da relação amorosa e do eixo familiar, buscar em si mesma uma outra possibilidade de realização também é uma forma de revolução em pequena escala. Talvez, se tivéssemos aprendido mais cedo a cultivar a solitude como uma forma de autocuidado, (lá vem spoiler) uma Carrie vestida de noiva deixada no altar não me entristecesse tanto. Pelo contrário, talvez eu pensasse um mísero “que chato”, mas concluísse que uma rejeição amorosa também não passa disso. A gente ainda pode aproveitar a lua de mel pra fazer uma boa viagem, conhecer gente nova, repensar a vida. A gente ainda pode explorar os infinitos potenciais que existem dentro da gente e que estão longe de se resumir ao eixo amoroso e familiar. 

Estar sozinha — estando em um relacionamento ou não — é, no fim das contas, mais uma forma de exercitar o autocuidado. É lembrar aquela velha verdade: entre tantos relacionamentos construídos ao longo de uma vida inteira, o mais sólido, duradouro e profundo é o seu relacionamento com você mesma. Inclusive, é através do seu relacionamento com você mesma que você projeta as suas carências e medos no outro. Então, que tal prestar mais atenção nos rumos que esse relacionamento anda tomando?


Maíra Ferreira é carioca, formada em Letras e forte defensora do body positivity. Escreve sobre a vida e o feminismo no Medium e posta sobre assuntos variados no blog

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